quinta-feira, 30 de junho de 2016

UMA ESTÁTUA VIVA







A tarde estava linda, e um pouquinho fria. Do jeito que eu gosto. Eu e meu marido acabáramos de chegar à Bauernfest, a festa que celebra a colonização alemã em Petrópolis. Enquanto caminhávamos, observando a alegria das pessoas, as barracas de quitutes e as cores, começamos a nos lembrar de pessoas que adoravam esta festa, e que já não estão mais aqui para celebrá-la. No meio de tanta alegria, nós estávamos um pouco melancólicos. 







E de repente, eu encontrei um anjo branco em um pedestal. As pessoas o rodeavam, curiosas. De longe, pensei que fosse uma estátua, e pensei: por que uma simples estátua chamaria a atenção de tantas pessoas? Nos aproximamos, e ele se moveu: era uma estátua viva! Coloquei algumas moedas na caixinha que estava aos pés do anjo, e li a inscrição: “Anjo Gabriel.” Aproximei-me mais, e mostrei o celular, pedindo para tirar uma foto, e ele concordou com a cabeça. O que mais me impressionou, foi a serenidade com a qual ele, de seu pedestal, olhava para nós. O artista tinha encarnado totalmente o seu personagem, e me perguntei até que ponto ele era apenas um personagem, ou realmente um mensageiro dos céus. 





Tirei a foto que eu queria, e ele me entregou um papelzinho dobrado, que tirou do seu bolso. Li: “Os momentos da vida em que mais crescemos, são quando ficamos de joelhos.”  Pensei nas tantas coisas pelas quais tínhamos passado, lembrando-me de que todos, alguma vez na vida – ou várias vezes – estaremos de joelhos, diante de uma dor, uma perda, uma grande dúvida ou um medo paralisante, sem saber o que fazer. Estaremos de joelhos para que não nos esqueçamos de que, ajoelhados, todos ficamos exatamente da mesma altura. Agradeci, e continuamos a nossa caminhada. De repente, a festa pareceu ficar mais colorida e bonita. Começamos a reparar no grande número de crianças que havia por ali, cada qual mais linda que a outra. E eu me lembrei de quando eu era como elas, e minha mãe e meu pai nos levavam a festas como aquela. Lembrei-me da música tocando alto, das cores, dos balões multicoloridos, e de como muitas vezes eu acordava na manhã seguinte em minha cama, sem saber como tinha ido parar lá. 





Olhei de novo para todas aquelas crianças, deixando que a alegria delas pudesse chegar até mim, e lamentando pelo dia em que todas elas – todas – teriam o seu momento de estar de joelhos. Desejei que tais momentos não durem muito.





Quando passamos novamente pelo local onde deveria estar o anjo, encontramos um homem que despia suas asas, guardando suas vestes em uma bolsa. Com o rosto ainda pintado de branco, ele se despediu das poucas pessoas que ainda o observavam e misturou-se à multidão, como um anjo que caiu do céu.





terça-feira, 28 de junho de 2016

A ONÇA

IMAGEM DO GOOGLE





Deixemos assim:
Esqueçamos da onça,
Entremos na dança 
Dos jogos e festas;
A tocha que passa
De mão para mão,
Sorrisos Colgate
Na televisão!

Deixemos de lado
O ouro roubado,
Larguemos de mão
Os corpos que sofrem
Tão abandonados
Nas filas, no chão
De infernos lotados!

Esqueçamos os fatos
As corrupções
Discursos mofados,
As aberrações
Que grassam nas ruas
De noite e de dia,
Os berros obscenos
As defecações!

Deixemos assim:
Sem água que chegue
Para se lavar
A negra sujeira!
Mentiras online,
Calúnias escritas,
Falácias bonitas,
E há sempre alguém
Pregando bondade,
Fingindo justiça,
Querendo só ser
A tal salvação!

Irmão contra irmão,
Direitos ‘iguais’
De sermos roubados,
Vilipendiados,
A fome, o terror,
Os desempregados
E nos trens lotados
Olhares vazios
De gente sofrida
Que não tem saída,
Não vê solução...

Deixemos assim:
Esqueçamos das vacas
Prenhes, mutiladas,
E das invasões,
Colheitas roubadas
E distribuídas
No meio de quem
Não faz por ganhar
Sua própria vida,
Destrói, queima, mata,
Aquilo que o outro
Cultiva na lida!

Pregando igualdade,
Querem que a riqueza
Seja repartida,
Mas ao mesmo tempo,
Dizem que o rico
É o fel da pobreza,
Culpados de tudo,
Da dor, do desgosto,
Mas desejam ter
Tudo o que eles tem,
Sem o mesmo esforço.

Nós somos a onça,
Que ruge, que medra,
Coleira apertada,
Sonhando com a mata
Com a liberdade,
Mas acorrentada
Pela vaidade
De gente covarde
Que diz que nos cuida,
Que diz que nos ama,
E que nos protege
E aos poucos, nos mata!






quarta-feira, 22 de junho de 2016

Alma









Toda alma, quando voa,
Não precisa olhar para baixo,
Nem de galhos para pousar.

Se precisa, é por apego,
Ou até pior – por medo
De ser alma, e de voar.






segunda-feira, 20 de junho de 2016

Ao Inverno





Bendigo a branca umidade,
Matéria que veio dos sonhos
Das almas adormecidas
E pousa sobre a paisagem.

Goteja gotas cantantes, 
Da folha de cada árvore,
E ficam presas às flores
-Pedrinhas de diamantes!

No inverno dos meus sonhos,
E da minha realidade,
Me aconchego junto ao fogo,
Pensando em minhas saudades...

Bendigo esse teu abraço
Me chamando  a caminhar,
Sair, e beber do vinho
Que descansou no verão...

Aqueço meu coração
Ao sentir o teu abraço
E ao pisar nas poças d'água
Revertidas em mormaços

Que sobem, sobem aos céus,
Na face do meio-dia
Matando do sol a sede
Renovando a alegria.

Inverno, seja bem vindo
Ao inverno da minha vida!
Nossas almas são irmãs 
E em mim te dou guarida.









sexta-feira, 17 de junho de 2016

PALAVRA DADA


Bonito é manter pontes e caminhos sempre desobstruídos, pois a gente nunca sabe quando precisará passar por eles novamente.





Quando eu era pequena, meu pai mantinha uma conta aberta em uma vendinha lá perto de casa, que pertencia ao Sr. Manuel, um Português, e sua esposa Dulce. Funcionava assim: Sr. Manuel tinha um caderninho onde ele anotava as coisas que as pessoas tinham comprado, e os valores. No final do mês, os clientes pagavam as contas, quitando-as ou deixando um saldo para o mês seguinte. Ninguém assinava papel nenhum: o que valia, era a palavra. Era raro alguém que não pagasse o que devia, e assim, o Sr. Manuel mantinha seus clientes e os clientes do Sr. Manuel contavam com o crédito que tinham com ele quando precisavam.

Quando meu avô morreu, minha mãe herdou um terreno que precisou vender, mas o inventário demoraria muito, e então ela o vendeu na base da palavra. A pessoa que comprou assinou os documentos, que na verdade, não tinham valor legal, e acredito que esteja por lá até hoje, se não passou o terreno adiante. Hoje em dia, quem faz uma negociação dessas está correndo sérios riscos de ficar sem dinheiro e sem propriedade.

Era bonito, quando a palavra tinha valor; palavra dada era palavra cumprida, e ninguém discutia depois. O que era acordado através de uma conversa, era cumprido, nem que aparecesse um negócio melhor: alguém combinava de esperar até a outra pessoa conseguir juntar dinheiro suficiente para comprar um carro, e se outro alguém aparecesse com a quantia toda de repente, à vista, o carro não seria vendido, a não ser à pessoa a quem o carro havia sido prometido. 

Hoje, as pessoas não cumprem nem o que está no papel; não temem processos, não temem nada. A palavra  é apenas alguma coisa usada em uma negociação, dada temporariamente enquanto for interessante para ambas as partes, mas na primeira oportunidade, quando uma das partes se vê na necessidade de cumpri-la, ela é descumprida sem a menor cerimônia e sem o menor constrangimento. Depois, a pessoa volta de cara lavada, achando que pode começar tudo de novo nos mesmos termos, e nem percebe que foi desonesta – deu a sua palavra e não cumpriu. 

Sou do tempo em que palavra dada era palavra cumprida, e que acordos eram selados através da honradez de cada uma das partes envolvidas. Morro de medo ao pensar nas gerações futuras, no que será delas, que não aprenderam a primar pela honestidade e pelo cumprimento da palavra. Hoje em dia, doa-se um rim, mas se precisarmos de uma gota de sangue que seja do receptor que recebeu nosso rim, ele olhará para o outro lado e fará cara de paisagem. Lamento muito pessoas que agem desta forma, pois a vida fecha suas portas a quem fecha seus corações.





quarta-feira, 15 de junho de 2016

PASSAR












Passar de leve, passar,
Pois a vida é só um sopro,
Uma janela entreaberta,
Incerta coreografia
De uma dança sem ensaios...

Passar de leve, passar,
Pois a vida é como um raio,
Repentina, intensa, breve,
Leve como a pluma solta,
E chegamos sem escolta
-Breve vida, vida louca!

Passar de leve, passar,
Pois que nada levaremos,
E também nada trouxemos,
A não ser páginas brancas
Que aos poucos, vão manchando
De chorar e de amar...

Passar de leve, passar,
Sem fazer muito barulho,
Como fazem os marulhos
Do imenso, denso mar,
Que se ergue sobre ondas
Que se acabam nas areias
Voltando a se desmanchar...








quinta-feira, 9 de junho de 2016

O Peso dos Anos






Eu hoje acordei 
Com um peso estranho 
Por cima dos ombros.

Olhei-me no espelho,
E em cada marca,
Havia cem anos.

Os olhos não viam
O que sempre viram,
Mas viam paisagens
Que eu nunca toquei
Na estrada das rugas
Por onde eu segui
Depois que acordei.

Eu hoje pensei,
Lembrei-me de coisas
Que eu tenho perdido:

Presenças ausentes,
Das quais abri mão
Tentando um sentido.

A boca não disse,
Não houve palavras
Minha voz já cansada
De não ser ouvida.
-Ah, coisas da vida!
Depus o meu fardo
E dele me aparto...









quarta-feira, 8 de junho de 2016

ControVERSOS



Imagem: Google






Dizia, olhava,
- Claro que queria!
O olhar queimava,
A boca vermelha,
Cereja molhada
Guardando seu mel
Na língua que ardia.

Movia a cintura,
Dançava, girava,
Cabelos ao vento,
Suor gotejava,
Amargo sorriso,
O riso amargava.

Fingia não ver,
Enxergar não queria!
A noite aguardava
À borda do dia
Um sonho, em promessa
Ao fim da tal festa...
E então, provocava,
Vulcão explodia!

Deitou-se, lasciva,
Na cama mal-feita,
Lânguida, desfeita,
A pele brilhando,
A boca pedindo,
O corpo aguardando
As mãos convidando...

E então, disse: "NÃO!"
Quebrou a magia,
Zombou do desejo
De quem lhe queria,
Despiu-se do fogo
Que lhe encendiava,
E logo, rogava
A quem lhe forçava:

"Me deixa sair,
Me deixa ir embora!"
Mas era um incêndio
O que ela causara,
E a água foi pouca,
Nem mesmo apagou
O fogo da cara,
Quiçá, o da fome
Que não saciara!

E a boca vermelha
Tornou-se borrada,
Os olhos que ardiam
Morreram de dor...
O corpo brilhante
Fechou-se ao amor,
Mais nada sobrou:
-Alquebrada alma
Sem paz e sem calma,
Que desmoronou!

A infância roubada
Nas mesas dos bares,
A crua vileza
Nascida dos ventres
Da indiferença;
A falsa inocência
Que nunca existiu,
Não chegou a ser,
Já nasceu mulher,
Nunca foi criança,
Não teve limites,
Não soube a esperança.

.

.

.

.

.

.

terça-feira, 7 de junho de 2016

A REALIDADE









A realidade, sem a fantasia,
É como uma lenda sem alegoria,
É um sonho torto numa noite insone
É sangue parado nas veias de um morto.

A realidade, pura e simplesmente,
É solo arenoso, estéril semente,
Viver doloroso, aquarela sem cor
Dor intermitente, vida sem sabor.

A realidade, sem a poesia,
É comida fria, sem tempero algum.
É um barco à deriva numa tempestade,
perfume sem cheiro, adeus sem saudade.

A realidade, sem imaginação,
É um vale sem eco, amor sem paixão,
Beco escuro e triste, estrada sem destino,
Presente sem futuro, bandeira sem hino.






sexta-feira, 3 de junho de 2016

Que Seja Assim







Que seja assim, tão bonito
Quanto a suavidade da folha
Que cai da árvore com o beijo do vento
E antes de pousar no chão definitivo, 
Vive o êxtase, doce momento,
Do seu  primeiro e último voo.

Que haja pássaros cantando lá fora,
E o pedaço de céu visto da janela
Seja azul-rosado, e azul cobalto
Quase assim, nacarado,
Bordado de nuvens esgarçadas e finas
Cortinas rendadas guardando o palco
Para o meu último adeus.

Que seja assim, a alma a voar livre
Pelos sisudos corredores rescendendo a éter,
Por onde caminham, cabisbaixas,
Pessoas amarguradas
Pela sua fé embotada,
Por tudo o que não percebem.

Que eu esteja calma, branda, leve,
Sem nada que me detenha
Ou me faça olhar para trás...
Que seja assim, finalmente,
Um desprender-se de repente
E um seguir livremente
Pelo caminho que se apresente
Por trás dos meus olhos fechados.









MINHA MISSÃO É ESTAR AQUI

Estava lendo  uma entrevista da psicóloga e personal coach americana Laura Ciel, no qual ela fala sobre aquele momento (momen...