quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A CAUSA ANIMAL

MOOTLEY, O CACHORRINHO QUE COMPREI EM UMA PET SHOP



Não acredito muito em causas, sejam elas quais forem, pois tenho visto que muitas boas intenções acabam servindo de lenha para manter aceso o fogo do inferno. Porém, se eu fosse defender alguma causa, com certeza seria a dos animais – seres inocentes e indefesos que sofrem com as crueldades e desmandos da raça humana, sem nada terem feito de ruim para merecerem tantos maus tratos. Admiro as pessoas de bem que realmente estão comprometidas com a defesa dos bichinhos, sem interesses próprios envolvidos – o que é mais raro.
Porém, sou contra a bandeira que diz: “Não compre; adote.” Acho que bicho é aquela coisa de olho no olho, amor à primeira vista, e se eu me apaixonar por um bichinho que está em uma gaiola na pet shop, eu vou comprá-lo. Eles também merecem uma chance de serem amados e felizes em um lar, assim como os cães vira-latas! De certa forma, as pessoas que compram animais também estão contribuindo com a causa, já que os livram de continuarem engaiolados ou de servirem de reprodutores para satisfazer a ganancia por lucros de seus tutores humanos. 

É uma tremenda idiotice, essa coisa de querer elitizar até mesmo animais inocentes.

Acho que quem adota animais merece todo apoio; mas o que eu tenho visto, é que alguns veterinários e protetores, ao recolherem animais feridos nas ruas, usam do sentimento de culpa das pessoas para obrigá-las a ficarem com eles. Oferecem vacinas gratuitas para que sejam adotados (não importa por quem, ou as condições de vida dos que adotam tais animais), e todas as facilidades momentâneas que convençam pessoas bondosas, mas que não têm condições para ficar com os bichos, a recebê-los em suas casas. Mas com o tempo, quando o animal adoece – e a maioria dos animais resgatados da rua tem alguma doença – os “veterinários do bem” cobram para atendê-los os mesmos preços que cobram por qualquer outro atendimento. Sem descontos. E à pessoa que adotou o animal, muitas vezes sem condições de pagar por um tratamento, só resta observar enquanto ele morre, correndo o risco de ser chamada de cruel ou negligente.

Se eu fosse lutar por uma causa animal, ao invés de recolher cães que estão muito bem adaptados à rua, levando-os para abrigos superlotados e cheios de doenças, onde eles levarão uma vida estressante, arriscada e monótona, eu os alimentaria onde eles estão, e se necessitassem de tratamento, após tratá-los eu os levaria de volta ao seu local de origem. Tentaria lutar por eles criando leis que os protegessem e fazendo de tudo para conscientizar as pessoas sobre a responsabilidade que deve ter quem possui animais. Tentaria lutar por penas mais severas para quem os abandona, incentivando denúncias a maus tratos. E eu sei que existem pessoas que fazem tudo isso, e a elas, o meu aplauso.
Gostaria de poder adotar cães, mas não posso ficar com todos, pois não tenho espaço físico, disposição, tempo ou condições financeiras para cuidar deles. 

Sinto muita pena deles, mas não me sinto culpada.

Mas acho que nem sempre o amontoamento de cães em abrigos é a melhor solução para eles. Cães de rua estão acostumados a ser livres, a andar de um lado a outro da cidade, e tem seus ‘amigos’ cães com quem brincam e interagem. Nos abrigos, além de confinados a espaços pequenos, onde o stress faz com que muitos acabem brigando e ferindo-se, eles ficam tristes e adoecem. 
Também não acho correta essa campanha contra quem cria cachorros a fim de vendê-los. Basta que se visite os canis, e que se conheça os criadores. Há muitos criadores sérios, que tratam muito bem os seus animais e que estão sendo prejudicados devido a esta injusta propaganda terrorista contra eles. Aqueles que maltratam animais, seja em canis de reprodução, em pet shops, nas ruas ou em suas próprias casas, devem ser denunciados, expostos e presos, pois quem maltrata um animal é capaz de maltratar qualquer coisa viva, e representa um perigo para a sociedade. Muitos são doentes mentais. 

Incentivar a adoção é muito legal, mas incutir sentimento de culpa nas pessoas, não é. Não sou eu a responsável pelos milhares de cães abandonados nas ruas; não devo me sentir culpada porque, ao passar por uma pet shop, olhei para dentro e tive vontade de comprar um animal de estimação. 

São os exageros apaixonados que acabam por desvalidar boas causas. 




terça-feira, 27 de dezembro de 2016

EXAGEROS






Você não tem que perdoar tudo o que te fazem, por mais que as outras pessoas digam isso o tempo todo. Duvido que elas mesmas pratiquem o que pregam. Você não tem que fingir que sente algo que não sente de verdade.

Mas aquilo que você não consegue perdoar não deve se tornar uma obsessão, um pensamento fixo. Melhor é tentar esquecer e seguir em frente. Vingar-se pode ser bem mais doloroso do que seguir em frente, e dá muito mais trabalho – sem contar que a vingança cria uma energia negativa que fica pairando em volta de quem se vinga, contaminando o ambiente e afastando as boas pessoas e os bons fluidos. A vingança pode deixar você fisicamente doente.

Porém, hoje em dia somos dados a exageros. Tais exageros apaixonados colocam-nos em situações terríveis e emocionalmente desgastantes. Muitas vezes – e isto também já aconteceu comigo – perdemos a razão porque deixamos que as palmas das nossas mãos caiam pesadas demais sobre alguém.

Você não precisa desejar que a pessoa que o ultrapassou pela direita no trânsito sofra um acidente e morra; não precisa quebrar o ônibus porque o motorista se atrasou; não precisa furar os olhos de alguém que te olhou com inveja ou com raiva; não tem que desejar a morte ou o mal de alguém que o magoou ou ofendeu; não precisa pisar na cabeça do colega que está competindo com você por uma promoção; não tem que difamar alguém a fim de destacar-se na mesma área que ele. Você não tem que cortar os dedos de alguém que apontou um erro seu. Você não precisa ser um ditador emocional a fim de tentar fazer com que as pessoas ajam da maneira que você acha certa. Você não tem que humilhar alguém a fim de conceder-lhe seu perdão por um erro que tal pessoa cometeu contra você.

Você não tem que perder uma noite de sono porque não sabe que vestido vai comprar para ir àquela festa; não tem que levantar a voz só porque alguém não entendeu o que você disse da primeira vez; você não está agindo certo ao xingar alguém só porque essa pessoa não pensa igual a você. Não é justo que você xingue a atendente da loja porque ela não lhe concedeu a atenção que você achava que merecia – basta ir a outro estabelecimento comercial.

Os exageros nas atitudes não são sinônimos de justiça, e sim de medo. Quem se vinga o tempo todo não está feliz. Ninguém carrega uma arma se não estiver com medo, se sentindo inseguro, e  raríssimas são as ocasiões em que uma arma de fogo se torna necessária. Ninguém precisa de um rifle para atirar em uma aranha. Melhor seria se todos pudéssemos ter mais paciência, discernimento, bom senso e educação.

 Muitas vezes, tomamos para nós alguma coisa que uma pessoa disse ou fez – também acontece comigo – e então passamos a esperar por uma oportunidade de “devolver” à pessoa algo que não pertence a ela, magoando-a injustamente. E assim, cada vez mais, o espaço em volta da gente vai se tornando cada vez mais deserto. Tudo por causa dessa atitude que parece não ter muita importância, mas que tem sido o pivô de muitos conflitos, separações de casais e afastamentos de pessoas amigas: o exagero.





quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Dentro




Dentro de cada pessoa
Existe um quarto vazio,
Que mostra uma paisagem fria
Onde raramente chega
A luz fraca de um dia.

Existem estradas longas
Já há muito abandonadas,
Estradas por onde passamos
Mas que deixamos para trás,
E nunca mais foram trilhadas.

Dentro de cada pessoa,
Existem portas entreabertas,
E mil janelas fechadas.

Dentro de cada pessoa,
Existem rios que correm
Caudalosos, carregando
As saudades afogadas
Para um mar que não sabemos.

Existem casas desertas,
Por onde ninguém mais passa,
E onde ninguém mais mora,
A não ser nossos fantasmas.

Dentro de cada pessoa
Existem muitas perguntas,
Que por medo ou precaução
Jamais foram formuladas.

As respostas, me disseram,
Vão com os rios caudalosos,
Que desaguam, cedo ou tarde,
Em imensos oceanos,
E escondem-se nas trilhas
Dos caminhos misteriosos,
Nas casas abandonadas
Por trás das janelas fechadas,
E das portas que trancamos.





segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

HUMANIDADE






Existe um nome que hoje ecoa na mídia, e que jamais será esquecido: Aleppo. Imagens das crianças que foram mortas ou que perderam suas famílias correm pela internet e pelos jornais e revistas do mundo todo. E eu fico me perguntando o quanto a raça humana progrediu ao ver cenas como as que foram mostradas ontem no programa Fantástico. 


2016 foi um ano dramático. Nosso país está mergulhado em lama, sujeira, corrupção e oportunismo. Parece não haver um prazo para que estejamos de pé após esses últimos anos de roubalheiras, que continuam. Mais de doze milhões de desempregados vão passar pelo natal sem ceia e sem presentes. 


A Venezuela, tenta sobreviver à fome e à ditadura cruel de um político enganador cujo único objetivo é manter-se no poder. Maduro já caiu de podre, e ainda não percebeu. Enquanto isso, nas ruas as pessoas recorrem aos saques – talvez, numa tentativa desesperada de salvarem suas famílias de morrerem de fome.


Mas nada se compara a Aleppo e às suas crianças massacradas. E quando eu as vi na TV ontem à noite, incapazes de chorar, os olhares perdidos em algum horizonte onde a esperança já morreu, talvez se perguntando o que será delas – sem pais, sem famílias, sem escolas e sem casas, sabendo que a qualquer momento, uma bomba poderá colocar um fim a tudo, eu me pergunto quantas delas não seriam mais felizes se esse fim chegasse. Fico me perguntando quanto tempo levará para que elas possam ir dormir novamente sem sentirem medo. Quanto tempo será preciso para que elas – caso se tornem adultas – possam se recuperar psicologicamente de tudo o que estão passando e conseguirem levar uma vida normal. 


Comparados ao que elas estão passando, nossos problemas não são nada. Aleppo é maior. Tudo é mais urgente e mais sofrível. E pouco pode ser feito, já que a ajuda da qual eles necessitam sequer consegue chegar às áreas de conflito, e quando chega – como os ônibus – são destruídas pelo inimigo. E quem é o inimigo? Um ditador egoísta e sanguinário, sustentado por outro ditador egoísta e sanguinário. É incrível o que uma única pessoa pode causar a milhões de outras pessoas. 


2016. um ano que entrará para a história. 


Um dia, tudo o que está acontecendo hoje será contado nas salas de aula, e testado nas provas escolares. E as crianças do futuro se sentarão durante as aulas de história, as cabeças apoiadas nas mãos, os olhares perdidos em alguma paisagem lá fora, com a mesma indiferença que nós costumávamos nos sentar quando aprendíamos sobre as Duas Grandes Guerras Mundiais, ansiosos pelo toque da hora do recreio ou da hora da saída. Todas as dores de Aleppo terão perdido a importância daqui alguns anos, assim como todos os judeus mortos durante a guerra transformaram-se em fotografias nos livros de história – personagens cujas histórias feias são contadas e escutadas com tédio pelos que vivem hoje. E mesmo assim, o mundo não aprendeu a lição. Nós não aprendemos a lição.


Não houve evolução. Continuamos a rastejar na mesma lama de egoísmo, crueldade, maldade gratuita, indiferença, desejo de vingança, ambição desmedida, mentiras, mentiras, mentiras.


Nenhuma guerra é santa. Nenhum ideal deveria ser maior do que uma vida humana. 


Nenhum ideal deveria ser maior do que uma vida humana.


Deus retirou-se, e enquanto se afastava da humanidade, não olhou mais para trás. Acho que Ele hoje aguarda em alguma sala de aula, talvez recebendo as almas daqueles que estão sendo massacrados pela história que nós escrevemos e contamos, e quem sabe, Ele tente, mais uma vez, ensinar-nos como escrever uma História mais bonita.


Mas nós sempre fomos péssimos alunos.



terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Mil Mortes








Ah, a dor de morrer mil vezes,
Sob o peso dos mesmos pés,
Que pisam, inclementemente
As asas mais distraídas!

Destruir a própria vida
Após o mais longo inverno
Pensando já ter cumprido
Uma estadia no inferno!

Segunda morte, que mata
Mais forte, e profundamente
Aquilo que está por dentro
Apodrecido, demente!

Ah, a dor de errar de novo
Brandindo uma vara curta
Contra os tentáculos fortes
Do mais destemido polvo!

Morder a flor entre os dentes
Até que se quebre o galho,
Amordaçar fortemente
Silenciando o ato falho!

Mistério, é tudo mistério,
Do começo até o fim
Pois quem morreu, retornou
E passa a zombar de mim!

Ah, a dor de morrer de novo
Sob as rodas mais pesadas
Da carruagem, que passa,
E dela, não fica nada...

E o cão só ladra, só ladra,
Uivando, às vezes, à lua
Que observa, refletida
Na suja poça da rua!

Na poça da mais vil lama,
A imagem refletida
De quem almejava o céu
Mas perdia a própria vida...





Os Piores Fantasmas







Os piores fantasmas

Não carregam nenhuma

Memória,

Os piores fantasmas.

São únicamente

Histórias

Já contadas.



Almas transformadas

Implodidas pela ambição,

De olhos insensíveis

E mãos separadas.


A eles, nada importa,

Nada conta,

Nada.




Os piores fantasmas

Ainda nem morreram,

Sentam-se, indiferentes, 

À mesa

De uma ceia indigente,

Os queixos apoiados nas mãos,

Os olhos perdidos,

Separados para sempre

Por milhas e milhas

De palavras malditas

Mal ditas.


São vidas sozinhas

Que perderam o encanto.

Sorriem nas fotos,

Entretanto...




segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ESQUECIDA




Paisagem esquecida
De terra árida e águas corrompidas:
Assim tem sido a tua vida.

Estradas largas e desertas,
Por onde andam fantasmas esgarçados,
Desbotados, carcomidos,
E sem memória.

Ah, o surreal e abstrato
Mundo insandecido
Onde passos vacilantes
Já não conhecem os caminhos!

E os gritos lancinantes
Não encontram a paz final,
O porto seguro
De um par de ouvidos!







segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

COMO VOU ADORNAR A MINHA ÁRVORE DE NATAL? - INTERAÇÃO COM ROSÉLIA BEZERRA

Este ano incluí uma ovelha negra no meu presépio; ela me representa.


Bem, a minha árvore já está prontinha, desde novembro. Sempre a monto mais cedo, pois gosto de manter o clima de natal em casa por mais tempo.





 A cada ano eu coloco luzes de cores diferentes - brancas, multicoloridas, azuis, verdes... mas este ano eu escolhi rosa - a cor do amor - justamente porque eu acho que é disso que o mundo precisa.





Antes, vermelho era a cor do amor, mas com o uso que está sendo feito desta cor atualmente, preferi não usá-la em minhas luzes... embora eu goste de tê-la como a cor predominante do natal! 




Também incluí um boneco quebra-nozes - sempre quis muito ter um, mas ou eram muito caros, ou então não tão bem acabados. Finalmente, encontrei um que me agradou.




Meu marido me presenteou com esse pequeno presépio luminoso (primeira foto), que quando aceso, deixa o Menino Jesus dentro de uma esfera de luz cujas cores vão se alternando.




Para mim, As cores do Natal são vermelho e verde, então coloquei-as no tapete (vermelho) e nas almofadas do sofá (verdes) e no panô da mesa, dourado, verde e vermelho. 




No mais, os detalhes: muito brilho e muita cor, porque para mim, natal tem que ter cor e brilho.




Mas não podemos deixar de pensar no verdadeiro sentido da festa, no que ela realmente representa, e sempre meditar sobre isto. 



Eu peço que 2017 seja um ano melhor para todos. Que não haja tanta corrupção no governo, nem mortes em desabamentos devido às chuvas. 




Que haja mais tolerância e respeito também  nas redes sociais - pois pensar diferente e saber respeitar as escolhas e preferências do outro, sem menosprezá-lo ou pensá-lo como estúpido porque ele não pensa como a gente -  é um sinal de evolução.




Eu espero e desejo que todos possamos ter um bom natal, apesar de todas as dificuldades pelas quais passamos, e lembremos sempre que, a fim de arrumar a casa, é preciso tirar tudo do lugar. Acho que é isso o que está acontecendo.







sábado, 3 de dezembro de 2016

ABORTO COMO MÉTODO CONTRACEPTIVO






Existem mulheres que são favoráveis à legalização do aborto. Eu não sou, a não ser em casos de estupro, problemas graves de má formação do feto ou quando a mulher corre risco de morte. Não por eu ser moralista, muito menos, religiosa - coisas que nunca fui - mas tenho as minhas razões.

-Em primeiro lugar, eu acredito que a mulher tem sim, o direito de tomar as decisões que quiser no que concerne ao uso do seu próprio corpo. Ela pode engordar, emagrecer, fazer exercícios físicos, tornar-se sedentária, tatuar-se, encher o corpo de piercings, raspar os cabelos, e até amputar as próprias partes (ou acrescentar outras). Porém, quando se fala em aborto, não é o corpo da mulher que está em jogo, mas um um outro corpo e uma outra vida que está dentro dela, cuja opinião ninguém perguntou, e que é fruto (na maioria das vezes) da irresponsabilidade e do egoísmo alheios.

-Em segundo lugar, não acho que o aborto possa ser considerado um método contraceptivo, pois antes dele, há muitos outros que todos conhecem. Até mesmo a abstinência quando não existe uma maneira de se prevenir por perto. A mulher tem a capacidade de pensar e tomar decisões responsávelmente, e não estragar a sua vida e a de outro ser humano apenas porque não conseguiu manter o zíper fechado ou a saia abaixada. 

-Li um post no Facebook no qual uma mulher afirmava que se o aborto for legalizado, será mais seguro para a mãe do bebê.


  😨 Mãe? Bebê?  - eu argumentei; "Mãe, para mim, é quem tem um filho, seja natural ou adotado. Quem aborta não é e nunca foi mãe." Ela me perguntou se eu estava transformando a questão em um problema meramente léxico. Respondi que uma mulher não pode ser considerada mãe de uma criatura que ela não considera viva, nem humana. Para ela, o feto é apenas algo que se joga fora, e não uma pessoa com um coração batendo. Ela não respondeu.

-Bem, quanto a oferecer mais segurança para a "mãe" da criança - digo, do feto abortado - imaginem só a situação: temos uma saúde falida neste país, assim como tudo o mais. Para se conseguir um simples exame de sangue ou uma radiografia, podemos ter que esperar meses. Cirurgias então, nem se fala! Muita gente morre antes de conseguir uma. 

Há alguns anos, quando a saúde já era ruim, mas não era tão horrível, tivemos um amigo que quebrou um braço (fratura exposta) em um acidente de carro. Chegamos na unidade de atendimento na manhã seguinte para visitá-lo, e o encontramos aos prantos, chorando de dor, sentado do lado de fora aguardando atendimento. Ele tinha passado a noite toda com uma fratura exposta, sem nem um analgésico, sentado do lado de fora do Pronto-socorro, sujeito a pegar uma infecção hospitalar. Ele precisaria de uma cirurgia, o que demorou quase um mês para conseguir. Enquanto isso, mandaram-no de volta para casa com a sua fratura exposta. 

Ok, voltando a falar do aborto, imaginem a situação: uma mulher que deseja abortar seu filho - digo, o feto - teria que esperar vários meses por uma vaga nesse sistema de saúde falido. De que tamanho estaria o feto, então? Ela não correria riscos, da mesma forma? E quem mereceria um atendimento de prontidão: o rapaz com a fratura exposta, uma pessoa gravemente enferma ou uma mulher saudável que deseja fazer um aborto?

 E quem pagaria pelo procedimento? Todos nós, que pagamos impostos, mesmo sendo contra. 

-Um outro problema, seria que a grande maioria de mulheres irresponsáveis alegaria que sofreu estupro para poder abortar de graça e em segurança. A coisa sairia de controle: como provar que ela não foi realmente estuprada? Qualquer uma poderia alegar que, passando por uma rua escura, foi agarrada e estuprada por um estranho, ficou com vergonha de ir à polícia e engravidou. E com certeza, o número de mulheres que fariam isso poderia ser muito grande. Vide o caso que bombou há pouco na internet sobre a garota que... bom, deixem pra lá...

-As camisinhas furam. As pílulas falham. Com certeza. Mas existem vários casais tentando adotar uma criança. Por que não ter o filho - digo, o feto - e dá-lo para alguém que cuidará bem dele? Mais humano do que matar - digo, abortar! E todo mundo ficaria feliz: os pais, a criança e a mulher que queria abortar.







quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

EU SOU EGOÍSTA.




Alguém chamou-me de egoísta por eu não concordar com o comunismo. Admito: sou egoísta mesmo.

Sou uma pessoa muito egoísta. Eu me recuso a dividir com os outros as coisas que eu consegui através do meu trabalho. Sou uma coxinha irascível, assumida e com assinatura – é assim que me descrevem, e eu assumo. Se eu ajudo outras pessoas? Não saio por aí fazendo propaganda disso, e nunca vou fazer. Mas penso que ajudo muito mais do que quem vive proclamando bondade e abnegação online. E não, eu não gostaria de dividir a minha casa com outra família, nem digo que gostaria.

Sou tão egoísta, que acredito em coisas surreais, como por exemplo, no trabalho, na educação e na força de vontade das pessoas. Eu acho que todo mundo tem condições de trabalhar e obter uma vida melhor através dos próprios méritos. E acredito que uma vida melhor não signifique ser rico, mas ter uma vida melhor do que aquela que nossos pais tiveram. Sou tão absurdamente egoísta, que não aprovo o aborto, mas aprovo o controle de natalidade, enquanto os que aprovam o aborto acham que o controle de natalidade é uma crueldade – afinal, todo mundo tem o direito de ter (e de matar) quantos filhos quiser.

Sou tão pateticamente egoísta, que acho que as pessoas têm que conseguir as coisas que desejam através de esforço próprio e mérito, e não através de sistemas paternalistas que determinam que, pela condição social, preferência sexual ou cor da pele, umas pessoas merecem mais do que as outras.

Sou tão ridiculamente egoísta, que, se alguém vier me dizer que eu sou fraca, não tenho condições de pensar por mim mesma, e que por isso, ela vai pensar por mim, decidir por mim e ser minha salvadora, eu a mando plantar batatas na mesma hora.

Eu não acredito em igualdade. Somos todos diferentes, temos histórias diferentes, gostos diferentes, crenças diferentes, e são essas diferenças que tornam a vida um aprendizado constante; é através delas que somos capazes de desenvolver nosso senso crítico, nossa solidariedade e por que não dizer, o nosso amor. Não acho que o mundo deva ser de uma cor só e chato feito uma bolacha; não acho que todo mundo é obrigado a viver e pensar da mesma forma. Na escola, eu já detestava usar uniforme, e sempre dava um jeitinho de personalizar o meu.

Eu não acho que apenas estudando história e absorvendo os pensamentos alheios, a gente vá se tornar pessoas melhores. Acredito que é preciso também ser capaz de ter senso crítico, conquistado através da observação cuidadosa e lógica daquilo que acontece em volta. Todo mundo sabe que a história mente muitas vezes, e que cria e mata seus heróis conforme a necessidade.

Eu sou egoísta mesmo, pois acredito que é preciso ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Acho que programas sociais devem ter prazo de validade, e que junto com eles (ao invés de apenas doarem coisas como esmolas) deveriam vir cursos profissionalizantes, que possibilitassem as pessoas tornarem-se independentes e sobreviverem por elas mesmas. Isso se chama dignidade humana. É claro que existem as emergências; ninguém aprende nada estando faminto. Mas após matar a fome com programas emergenciais, as pessoas deveriam ter direito à dignidade, e não precisarem mais depender de dinheiro do governo. Para isso, precisam ter uma profissão. Mas parece que nos dias de hoje, trabalhar para outra pessoa é visto como “sustentar a burguesia golpista.”

Eu gostaria mesmo que todo mundo tivesse direito à casa própria – não essas casas minúsculas e mal construídas iguaizinhas, que são distribuídas como se fossem grande coisa com pompa e circunstância, e que se deterioram em apenas alguns anos, além de serem feitas longe dos centros urbanos, nos lugares onde ninguém gostaria de morar, obrigando as pessoas a acordarem às 4 da manhã para ir ao trabalho, chegando em casa após as dez da noite. Eu queria que as pessoas pudessem escolher que tipo de casas elas gostariam de ter, de acordo com suas necessidades.

Eu sou tão egoísta, que não tenho partido político. Não acredito nos políticos. Mas creio que alguma coisa está começando a mudar, e é como uma casa em obras: primeiro, as coisas ficam fora de lugar, sujas, algumas cobertas com plásticos pretos, mas quando a reforma termina e a gente limpa e coloca tudo no lugar outra vez, estará tudo bem melhor. Nunca perfeito, porque não existe nada perfeito no mundo (a começar pelas pessoas), mas melhor.

Eu sou egoísta. Não gosto dessa coisa de ‘tudo pelo coletivo’, porque para mim, isso é a maior balela e o maior atraso de vida. Torna as pessoas acomodadas, acreditando que são fracas, que não podem conseguir nada sozinhas, que precisam sempre da ajuda de alguém, que sem alguém que lhes diga o tempo todo o que fazer, não conseguem tomar as decisões certas. A inteligência embota, os músculos afrouxam, e elas acabam se tornando massa de manobra para os mais espertos.

Acho que  a maior lição de vida que alguém poderia aprender, é acreditar em si mesmo. Acreditar que, esteja onde estiver, isso não é uma condição que precisa ser permanente. Que não é necessário ou certo invejar os que possuem mais, nem desejar sua ruína, pois isso não tornará ninguém melhor. E entender que o mundo nem sempre é justo, a vida nem sempre é justa, mas que é possível resolver os problemas; pelo menos, a maioria deles.

E mais importante: o paraíso não existe. QUALQUER UM QUE LHE PROMETER O PARAÍSO, ESTARÁ MENTINDO.




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Morrer de Fome







Existem várias formas de se morrer de fome. A forma física é dolorida, cruel, inadmissível. Acho simplesmente bizarro que em pleno século XXI ainda haja pessoas que morrem de fome pelo mundo, porque a distribuição de comida é tão injusta. Todos nós cometemos o crime de jogar comida fora, nem que seja aquela sobrinha de arroz no fundo da panela, o pão que endureceu, a comida que foi feita a mais e ninguém comeu e acabou estragando. Somos campeões em desperdício. 

Mas há uma forma de morrer de fome que é mais lenta, talvez fisicamente menos dolorida, mas que mata uma coisa muito mais importante do que o corpo: mata a alma. É quando alguém delimita nossos caminhos, dizendo por onde podemos ou não seguir, a quem adorar e a quem odiar, quanto dinheiro podemos ter, onde podemos morar, e com quem, a quem pertencerá aquilo que produzimos através do nosso trabalho, quais ideias podemos propagar e quais ideias devemos calar sob risco de morte. 

E ficam as pessoas que morrem desta morte vivendo em um inferno em vida, onde a miséria é disfarçada em forma de comida. Porque não é só a fome que traz a miséria. Existe a miséria espiritual, que consiste em termos mordaças sobre a boca, vendas nos olhos, braços amarrados e sonhos castrados.

Morreu Fidel Castro. É claro que isto não vai resolver todos os problemas do mundo. Não morrerão com ele a memória das centenas de milhares de pessoas que ele exterminou, torturou, exilou e baniu do país. Ainda há seus herdeiros, ainda há a sua filosofia egoísta que teima em clamar ser possível dividir tudo por igual, desde que a maior parte fique com eles. Mas em vista de tudo o que vem acontecendo no Brasil, considero a morte de Fidel exatamente neste momento, simbólica.

Tomara que eu esteja certa.

ALELUIA!!!!




Google, O Paaaai






Ainda me lembro de quando eu fazia pesquisas para a escola: primeiro, ia a uma biblioteca e pesquisava o assunto em vários livros diferentes, selecionando (e copiando à mão) as partes que interessavam para a minha pesquisa; depois, chegava em casa e procurava figuras em revistas a fim de ilustrar meu trabalho (piquei muitas revistas das minhas irmãs e levei algumas broncas por isso); depois, passava o material todo a limpo, torcendo para não errar (alguns professores não admitiam qualquer tipo de rasura, e tinha que começar tudo de novo se cometesse algum errinho). Também tinha que fazer uma capa para o trabalho, com letras de imprensa para o título, colorindo com canetas hidrocor. Eu, que nunca tive habilidade para desenho, sofria muito nessa parte.

Levava pelo menos quatro horas para terminar tudo, sem contar a parte da pesquisa, que significava ter que tomar um ônibus, ir até a biblioteca, ficar lá uma tarde inteira e depois tomar outro ônibus para casa.

Hoje em dia, as crianças tem a opção de procurar no Google, e encontram textos, fotos e vídeos com documentários e depoimentos sobre o assunto que desejam aprender. Às vezes, isso pode ser muito negativo – há muita fofoca e mentira na internet – mas para confirmar informações, basta que se procure em vários sites e cruze as informações que encontrou. Também há várias enciclopédias online, além da Wikipedia, uma enciclopédia interativa.

Mas vejo pessoas partilhando posts que propagam mentiras absurdas, sem nem mesmo checar as fontes. Isso só serve para espalhar ódio. Também há os que propagam suas fontes de informações tendenciosas, a fim de confirmar suas teorias, mesmo que o óbvio prove o quanto elas estão erradas.

Mesmo assim, a internet e o Google são excelentes fontes de informação! Por que não aproveitar tais recursos, se eles são mais práticos e muito mais rápidos!

Os livros nos quais estudávamos história não eram totalmente confiáveis – visto a História do Brasil que aprendemos, e que contém informações equivocadas. Hoje mesmo, os livros liberados pelo MEC vem cheios de erros. Da mesma forma, nem tudo o que está online é confiável. Porém, acho um tremendo sinal de atraso considerar que tudo o que está no Google seja mentiroso. Através deste site de busca, podemos encontrar diferentes opiniões sobre o mesmo assunto, e lendo com atenção, tirar as nossas próprias conclusões.

Hoje em dia existem muitos livros de papel tendenciosos, escritos a fim de mostrar o que é interessante para esta ou aquela filosofia, e esconder o que não é. Como existem cientistas pagos capazes de provar qualquer teoria – até mesmo a de que maconha faz bem à saúde – existem escritores capazes de provar qualquer teoria que desejem, exercendo seu poder de persuasão e usando palavras bonitas. 
Mas na prática, as coisas podem ser bem diferentes.

Creio que a melhor forma de lidar com essa enxurrada de informações que nos assola diariamente, é usar o nosso discernimento; ler, sem preconceitos, sobre vários assuntos, cruzar informações e tirar conclusões.

Observar cuidadosamente o que se passa em volta, por exemplo, as reações de quem defende isto ou aquilo, pois quando é preciso matar, xingar, ridicularizar ou ameaçar outras pessoas para que uma ideia predomine, é impossível que advenha de tais práticas alguma coisa positiva.

Quem chama o outro de burro ou de ignorante, na verdade está afirmando seu preconceito e sua própria ignorância, pois só admite uma única verdade: a sua. Pessoas assim são pretenciosas e fanáticas. Melhor fugir delas.




quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A Morte Não Mata




A Morte Não Mata


A morte não afasta; até aproxima
Agora  e para sempre, pelo pensamento
O que já está fora e o que ficou dentro,
E que pelo físico se afastaria.

A morte não mata o amor, nem o ódio,
Não se deixa de amar, ou se passa a amar...
Um foi, um ficou, mas se o laço ainda existe,
Não há recomeço, nem mesmo algum pódio.

A morte é apenas janela fechada,
Mas ainda há a casa, e o seu morador
Que guarda a saudade, ou todo o rancor
Daquele que passa por sua fachada.

A morte não mata; o morto não morre,
Pois a sua ausência ainda traz dor
(Quem sabe, alegria, se não houve amor)
Quem fica carrega consigo as lembranças.

Mas e quem se foi – lembrar-se há, ainda,
De quem adorou ou odiou nessa vida?
Eu creio que ‘sim’ é a certa resposta,
Não há mais a chave, mas ficou a porta.






"O amor não mata a morte, a morte não mata o amor. No fundo, entendem-se muito bem. Cada um deles explica o outro."

Jules Michelet







Sentidos








Eu acho que o amor
É uma briga de sentidos:
Cheiros, sabores, cores, sons
Ecoando em vários tons
Na ansiedade de um par de ouvidos.

Uns pensam que amor é só sentimento,
Volátil, feliz ou sofrível,
Um sentir que ninguém explica
Porque não cabe em ‘sim’ ou ‘não.’
Mas eu acho que amor é carne, alma e sangue,
Um pouco abaixo da loucura
Que se situa na paixão.

Depois, o fogo abranda, e ficam
Entre os gritos, silêncios e meiguices,
As brasas quentes e vermelhas
As mesmas que nos aquecerão
(Meias de lã não bastarão)
Nas noites frias da velhice.





terça-feira, 22 de novembro de 2016

Momento de Paz




O Paraíso
É quando estás em paz,
Envolto em branco
Bem no meio do arco-íris,
Descansando na  serenidade,
Sem querer prender a liberdade.

Estar em paz, é não querer mais nada,
A não ser agradecer pelo que tem,
Pelo que já é, e até
Pelo que jamais poderá ser.

É sentar-se lá fora, sobre a grama,
E fechar os olhos para melhor ver,
Abrir os sentidos,
Sentir no vento os cantos dos pássaros
Vindo, vindo, vindo, vindo...

Se houver chuva caindo,
Multipartir-se com as gotas
E cair junto com elas,
Achando que o dia é lindo,
Lindo, lindo, lindo, lindo...




sábado, 19 de novembro de 2016

VIDA







Sons de cristais que brindam,
Sons de cristais que quebram:
Assim tem sido minha vida
Nos caminhos que me levam.

Sonhos e pesadelos,
Vontade de despertar
Ou de dormir para sempre
E nunca mais acordar.

Cheiro de flor e mato,
Cheiro de asfalto quente:
Eu sigo, aceitando os fatos
No meio de tanta gente.

Ora triste, ora contente,
Assim como todo mundo
Que vai procurando um rumo
Entre o raso e o profundo.



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lembrança de um Dia Feliz - e Outras Lembranças






Não sei por que eu fui me lembrar deste dia logo hoje, que está chovendo e faz frio. Mas de repente, ele me surgiu lá do baú das coisas perdidas, quem sabe, trazido à tona pelas gotas pesadas de chuva que caem umas sobre as outras, e que eu - enquanto esperava por meu aluno - olhava da janela. 

Era uma tarde de verão. Minha mãe tinha um irmão por parte de mãe que morava em São Paulo, de cuja existência ela só ficou sabendo depois de adulta. Ele às vezes costumava nos visitar, e quando vinha, dormia no sofá da sala, e trazia alguém com ele: uma das filhas ou sobrinhas. Eu gostava muito do Tio Eugênio. Ele fumava muito, e vivia tossindo. Toda vez que ele tossia, colocava a mão sobre o coração e respirava fundo, os olhinhos caídos, e dizia: "Meu coração vai falhar a qualquer momento..." Na verdade, ele viveu bastante, embora pudesse ter vivido bem mais se não fumasse tanto. 

Naquele dia, ele estava lá em casa. Estava sol e muito calor, e eu e minha irmã, que estávamos usando biquines, brincávamos de correr uma atrás da outra pelo quintal  levando baldes de água que jogávamos uma na outra de surpresa. Acho que eu tinha uns dez anos, se muito... não aconteceu nada de especial naquele dia. Não existe nada que eu gostaria de deixar registrado, algo que alguém tenha dito ou feito que justifique uma crônica como esta. Não existe nenhuma mensagem construtiva em nada disso. 

Minha mãe era viva, e jovem. Depois da correria e dos baldes d'água, houve um café da tarde à mesa da cozinha, preparado por ela. 

Eu me lembro dos meus pés descalços e da lama no quintal. Lembro-me do contato gelado da água em meu corpo e de minha mãe ralhando: "Vocês vão pegar um resfriado!" Lembro do Tio Eugênio encostado à parede, do lado de fora da casa, observando nossa brincadeira. Eu me lembro do sol brilhando, o céu azul, os cachorros (tínhamos muitos) correndo para tentar escapar das rebarbas da água. E minha mãe disse; "Aproveitem e reguem as plantas do canteiro para mim!" E a gente ficava na frente do canteiro, de modo que a água caísse nele quando a jogávamos uma na outra. 

Também me lembrei, enquanto escrevia, das guerras de lama, mamona e limão que fazíamos com os colegas na rua. Só bem mais tarde ficamos sabendo que mamonas eram plantas venenosas, e que os limões podem manchar a pele em contato com o sol. Mas no nosso tempo, isso não acontecia; Deus poupa as crianças, os bêbados e os loucos. Sobrevivemos ao Ki-suco - uma bebida feita de química, aromatizantes artificiais, corantes e conservantes. A língua ficava roxa ou rosa quando bebíamos, dependendo do sabor escolhido. Sobrevivemos ao açúcar, que era propagandeado na TV como sendo uma fonte de energia para as crianças. Nós comíamos doces que ficavam pegando poeira sobre o balcão do bar do 'seu' Manoel, e comíamos do pão que era embrulhado com folhas de papel de pão que ele cuspia no dedo para separar umas das outras. E nós sobrevivemos. 

Quando chovia muito, nós andávamos pela enxurrada da rua, água pelos tornozelos, e costumávamos também tomar banho numa sobra de água da antiga CAEMPE que corria bem ao lado do portão da nossa casa, em um bueiro aberto e comprido. Nunca soubemos se aquela água era limpa. Imaginem, naqueles tempos tinha tanta água em Petrópolis, que sobrava e era jogada fora.

Eu abraçava cachorros e gatos que raramente tomavam banho. Tinha galinhas, porquinhos da índia e hamsters. Brincava com besouros, joaninhas, lagartas, formigas e borboletas. Fazia bolinhos de terra. Minha vida não era lá muito higiênica, se comparada à vida das crianças de hoje, mas eu era feliz. 

Por que eu fui lembrar de tudo isso? Sei lá. Acho que estou ficando velha mesmo.




quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Se Você me Deixar







Se você for embora,
Não vai levar consigo um pedaço meu,
Não me fará andar pela rua, entre o breu,
Nem ficarei cheirando a tua camisa usada.

Não, não vou ficar aqui, te esperando voltar,
A cama desfeita, a luz apagada,
A chorar, encharcando a fronha onde eu bordei
Teu nome com tanto zelo, no meu travesseiro.

Se você for embora,
O tempo vai passar, e eu vou te esquecer
(Mas escolha ir embora sem jamais morrer)
Pois o vento e a chuva levam tudo o que fica
E o teu nome vai embora na enxurrada, a escorrer...

Sei que o que sempre houve morrerá aqui,
Porque a vida seguirá, e o tempo não para
Para contarmos o tempo, nem ao sentirmos saudade...

Porém, há uma grande verdade que o futuro assiste,
Ao olhar para trás, lembrar você há de deixar-me
Mesmo que só às vezes, tremendamente triste...




No link abaixo, eu cantando Tim Maia








domingo, 6 de novembro de 2016

Lembrança







Quem morre,
É como um pássaro que se lança num abismo
E nunca mais pousa.

Gosto de olhar para o céu
E pensar em voos eternos,
Asas que movem-se, abertas
Por sobre a saudade dos vivos.
Estranho, como nos tornamos
Tão próximos de quem se vai,
Pois é possível, sempre,
Olhar para cima e revê-los,
Abranger distâncias 
Através dos pensamentos.

E essas águias que planam,
O que sentem?
Escutam as preces sopradas,
Ou pairam sobre as saudades
Num voo longo e solitário
Sem pousos, sem sofrimentos,
Adormecidos?

Mas há manchas no azul,
Há sombras dentro das nuvens
E um brilho diferente 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Minha Casa




A minha casa é meio-Frida Kahlo:
As cores se misturam e se espalham
Aleatoriamente nas paredes,
Em verdes e azuis, roxos, laranjas,
Em brancos, amarelos e vermelhos.

Cortinas não tem forros; esvoaçam
Ao vento que adentra e as agita,
E espalha o cheiro doce do incenso
Que eu queimo pela casa todo dia.

A minha casa é simples, e aqui dentro
Somente os objetos que amamos:
Presentes e lembranças de viagens,
E coisas que gostamos e compramos.

Por sobre a escadaria de madeira,
As mãos dos marceneiros já idosos...
A maioria deles já se foi,
Deixaram suas presenças no meu chão.

Sob esta escadaria, hoje estão
Os livros que mais amo, e que não doo;
De vez em quando os leio, e então me entrego
A branda realidade dos seus voos.

O meu jardim é uma parafernália
De plantas que eu encontro pela rua,
E ao plantá-las, raramente brotam
Onde eu as plantei, mas onde querem.

E Burle Marx, acho, se revira
Na tumba onde dorme, ao contemplá-lo!
Pois nada nesse canto é ordenado,
E nada obedece seus espaços!

Cresce uma pitangueira no canteiro,
As rosas se debruçam sobre o muro
E escolhem enfeitar outros jardins;
O meu bonsai cresceu trinta centímetros,
O cedro se encheu de passarinhos
Que fazem os seus ninhos por ali;
Me acordam de manhã, sempre bem cedo.

Pelo gramado, há falhas onde a grama
Foi arrancada pelas patas ávidas
Dos meus cachorros; ele se divertem
Ao derraparem sobre as folhas verdes.

Na minha casa nada é muito certo:
Eu desafio o rígido bom gosto
E rio das suas leis – desobedeço
O que já foi determinado e posto.





MINHA MISSÃO É ESTAR AQUI

Estava lendo  uma entrevista da psicóloga e personal coach americana Laura Ciel, no qual ela fala sobre aquele momento (momen...