terça-feira, 30 de julho de 2013

Um Ipê de Caráter





Quando o ganhamos de presente de minha irmã, ao nos mudarmos para esta casa, era apenas uma arvorezinha magrela e pequenina. Ao perguntarmos de que espécie se tratava, ela respondeu-nos: "É um ipê roxo!"

Já temos um amarelo, que já estava na casa desde que ela existe, e pensei na beleza efêmera das flores todo mês de setembro. E quando elas caem e se esparramam pelo gramado e pelas escadas qual flocos amarelos, parece ainda mais encantador. Pensei que adoraria ter um outro, de outra cor.

Plantamos a árvore há alguns metros do muro que separa nossa casa da casa vizinha. O tempo foi passando, e ela crescendo. Todo invernos, deixa cair as folhas até ficar totalmente nua, os galhos crescentes  estendidos como finos dedos ansiando pelo céu.

Um dia, procurei saber mais sobre os ipês roxos, e o que descobri, espantou-me: quando em florestas, eles podem crescer mais que trinta metros! Meu marido ficou com medo: o nosso já estava quase na altura da casa, que é de dois andares. Pensou em mandar cortá-lo. Pedi que tivesse um pouco mais de paciência.

O tempo foi passando, e nada de flores roxas. Até eu pensei que talvez fosse apenas uma árvore comum, e que não se tratava de um ipê roxo. Quando eu pedia aos jardineiros que a cortasse, eles exclamavam: "Faz isso não, dona Ana. Isso fica é lindo!" Pesquisei mais uma vez e descobri que um ipê roxo pode demorar até oito anos para começar a dar flor, e que longe da escuridão da floresta e do solo enriquecido por folhas secas e pequenos animais mortos, ele não cresce tanto.

Há pouco tempo, eu e meu marido estávamos no jardim, em uma tarde de domingo, olhando para ele - já totalmente nu, algumas de suas folhas secas ainda caídas em volta da árvore. Confabulamos sobre o seu destino, e mais uma vez, meu marido manifestou-se a favor do corte. No dia seguinte, cheguei perto da árvore e conversei com ela:

"Escute aqui, amigo, se você realmente for um ipê roxo, trate de produzir algumas flores, ou temo dizer que seu destino esteja selado."

Algumas semanas depois, achei uma florzinha cor-de-rosa no chão da varanda, mas como tinha ventado muito durante a noite, pensei tratar-se de alguma flor que tivesse viajado de algum outro jardim. Mas ao olhar para cima, constatei que os galhos totalmente nus do meu ipê já não estavam assim tão nus: em uma das pontas, havia um cachinho com três flores pequeninas. E não eram roxas: eram cor-de-rosa.

Imediatamente, escutei a mensagem da árvore: "Eu sou o que vim para ser. Tenham um pouco mais de paciência comigo, e na hora certa, eu lhes entregarei a beleza de minhas flores."

Decidimos que o ipê fica.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Levou Consigo





Levou Consigo


Após fechada e deixada
Em sua derradeira caixa,
As mãos cruzadas no peito,
Levou consigo o silêncio
Sobre o que havia feito,
Levou a falta de amor,
Levou tudo o que não disse,
Não teve, nem demonstrou.

Levou consigo a saudade
De alguém que ignorou,
Levou a dor da vontade
Do abraço que frustrou,
Levou o medo da morte,
(E foi o que mais pesou.)

Deixou lembranças apenas
Naquele alguém que a amou
Um dia, em tempo passado,
Mas que ela deixou de lado
Usando de todo escárnio
Fortemente, machucou.

O que havia cultivado
-ouro, prata, alguns dobrados
Não pode levar consigo,
E tudo ficou perdido
Em algum outro lugar
Que escondeu bem escondido
Com medo de alguém levar!

E aquilo que levou
Foi só dor, pena, tristeza,
Arrependimentos feitos
De toda a sua vileza
Em seus últimos momentos
Teve, na frente, mil rostos
Banhados em densa tristeza
Eram rostos do passado,
A quem só causou desgosto!

E o féretro seguiu só
À sua última morada,
Pois ninguém compareceu,
Não houve prece rezada...
E depois, até a lembrança
Daquele que um dia a amou,
Aos poucos, foi apagada...
-Nada levou, nem ficou.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

AMARGURA - SONETO





Amargura


Guardei minhas mágoas dentro de um lenço
E sobre estas páginas, o sacudi.
As duras palavras, moí no silêncio.
Já dei por perdido o que há muito perdi.

Não levo comigo senão uma dor,
Que já nem me lembro se eu mesma escolhi.
A dor, já dormente, perdeu o amargor
Caída no tempo, penso que morri.

Mas há uma criança querendo viver,
Que dentro do peito, reclama e se agita...
Se a deixo dormir, a vida a desperta.

E esta criança quer ser, ressurgir,
Pois teima em sorrir, mostrar que está viva,
No fundo, eu entendo que ela está certa.



Poema de Amor Platônico








Poema de Amor Platônico


Juntos levitavam,
Se olhavam,
Sonhavam...
A vida suspensa
No meio dos dois,
Entre o existir,
O agora e o depois.

Não falavam - ficavam
Suspensos, planando,
Futuando...
Não pronunciavam
O impronunciável,
Sabiam que o sonho
Não era palpável.

História contada
Por quem só em sonhos
A experimentou.
O sonho passou,
Ninguém despertou...



quarta-feira, 24 de julho de 2013

A Idosa






A Idosa


Passava a mão pela testa
Enxugando o cansaço.
Apertando os olhos,
Mirava o horizonte
Tentando ver algo novo,
Diferente,
Curioso.

Cabelos brancos esvoaçavam
Em volta de um rosto magro
E às vezes, a chuva seguia
Nas valetas das muitas rugas.

Avançada em anos,
Tinha tão poucos bem vividos...
Chinelos gastos de tanto errar
Pela vida e pelos caminhos.

Mas ainda havia flores
Mesmo que já desbotadas
Na estampa do vestido.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Face-cara-de-pau




Fico escandalizada com algumas sandices que vejo sendo compartilhadas no Facebook. Acho que Mark Zuckerberg criou uma ferramenta infernal, embora não tenha sido esta a sua intenção. Infelizmente, o Facebook no Brasil tem se tornado uma ferramenta para espalhar calúnias, agredir pessoas verbalmente, difamar cidadãos honestos e espalhar a violência.

De repente, alguém não concorda com o que a gente diz, e adentra a nossa página com abordagem irônicas e agressivas, e nem sequer se preocupa em disfarçar que toda aquela agressividade direcionada só estava esperando por uma pequena chance a fim de revelar-se - pois tratava-se de coisa 'encomendada' por outros.

Mas bem além das ofensas pessoais, o Facebook está sendo usado por gente ignorante que nem sabe o que está partilhando, ou que nem sequer leu a postagem até o fim antes de clicar sobre ela. 

Ainda há pouco, deparei com o seguinte compartilhamento:


"A Globo te mostra um dono de loja chorando, te faz sentir pena dele, mas não te diz que eles tinham seguro que cobre tudo, e que as roupas da loja foram distribuídas para MENDIGOS do Leblon... 
A Globo faz você sentir pena dos bancos que foram quebrados, mas não te diz que os bancos brasileiros são os que mais lucram no mundo inteiro. Extorquindo o povo pobre. E não te diz que os sete maiores bancos tem ativo superior a 50 bilhões de reais.
A Globo só mostra o quebra quebra do protesto, mas não te fala sobre a pauta dele. Diz que a polícia tem que agir mais energicamente, mas não te fala que a polícia não vai resolver a farra dos helicópteros, que a polícia não vai resolver a crise na saúde e na educação, e não fala que a polícia não vai resolver a cpi dos transportes e do maracanã. Não fala sobre quem são os responsáveis por todos esses problemas que estão levando essas pessoas às ruas.
A Globo te fala que o governador fez uma reunião de emergência com a secretaria de segurança depois do protesto... mas não te diz que faria mais sentido ele fazer uma reunião com a secretaria de educação, de saúde e de transporte.
A Globo chama as pessoas que estão lutando na rua de vândalos e de arruaceiros, e mostra a revolta que ta acontecendo ali, mas não te mostra o relato das pessoas que estão sendo presas injustamente, não te diz porquê elas estão fazendo aquilo, nem te mostra outro lado, não te diz que a maioria dos feridos foram socorridos entre médicos de verdade que ofereciam os primeiros socorros com qualidade e gratuitamente, que os advogados da oab defenderam gratuitamente essas pessoas, e que suas fianças eram pagas por vaquinhas feitas entre os próprios manifestantes.
A Globo te mostra moradores do Leblon colocando flores em frente as lojas invadidas, e faz você sentir mais pena das lixeiras das ruas do que das pessoas que são mortas pela Violência e Terrorismo de Estado. Ela fala muito pouco dos muito inocentes que são assassinados na favela toda vez que tem incursão policial e põe um ex-policial na tv dizendo que tem mesmo que usar fuzil na favela, fazendo você acreditar que aquelas vidas valem menos.
ATENÇÃO: A televisão está tentando colocar você contra as pessoas 'fudidas' (sic) como você, e a favor dos ricos. Se quer assistir esse Jornal, assista sabendo disso, e observe as táticas que eles usam para te convencer de que os seus irmãos são seus inimigos."




Uma postagem que favorece às agressões, o quebra-quebra, e ainda justifica os saques, dizendo que os donos das lojas saqueadas tem seguros que cobrem tudo, e os objetos roubados foram 'humanamente distribuídos' entre os mendigos da cidade. Pimenta no olho do outro é sempre refresco. Queria ver se fosse a sua loja! Queria ver se você trabalhasse em algum destes lugares que foram destruídos, e fosse ficar sem salário no final do mês porque não existem mercadorias para você vender. Queria ver se o banco no qual você tem seu salário depositado todo mês, não abrisse amanhã de manha para você resgatar seu dinheiro suado. E mais ainda: sem os bancos, como você financiaria seu carro e sua casa própria? Afinal, por que ter casa própria e carro, se você é a favor do comunismo, contra os 'ricos' e contra a propriedade privada? Por que gritar palavras de ordem contra os burgueses, se você é um deles?

Ninguém que sai quebrando tudo, atirando coquetéis Molotov contra seres humanos e praticando todo tipo de roubo e violência, inclusive, contra prédios históricos, é preso injustamente! Pena que estas criaturas não possam ficar o resto de suas vidas em uma prisão.

Na verdade, esse movimento já deu nojo. As pessoas querem consertar o país, querem honestidade dos políticos, mas o que elas fazem? Agem exatamente como eles (ou até pior)! Roubam, matam, destroem, saqueiam, incitam a maldade e a violência! Por que não doam tudo o que elas possuem e vão viver em uma comuna, já que gostam tanto de comunismo? Por que não se mudam de vez para Cuba?

E se os manifestantes podem fazer 'vaquinhas' para soltar todo mundo (uma fiança destas pode chegar a 20 mil reais) por que não fazem vaquinhas para ajudar a quem realmente precisa? Por que não doam alguma coisa às comunidades carentes? Por que não se mobilizam para ajudar os mais fracos fazendo por eles algo de concreto, ao invés de apenas gritar palavras de (des) ordem? Fácil: porque o dinheiro das fianças não vem de vaquinhas coisa nenhuma! Tem alguém grande por trás disso. Tem gente financiando essa corja toda. E os bem-intencionados que vão às passeatas realmente por quererem um país melhor, são usados como massa de manobra.

E quem será que está por trás de todo esse vandalismo? Idiota é quem acredita que não há ninguém. Apenas concordo com uma única parte deste ridículo texto: "Observe as táticas!" Aprendam a observar e julgar por si mesmos, antes de caírem nas malhas de gente que os incitam a destruir, roubar, matar,  depredar e infernizar a vida de pessoas honestas que nada tem a ver com nada  disso.

Ausência





Zumbidos na tarde morna,
O sol entornando os raios
Por sobre as montanhas lisas.

Uma borboleta agoniza
Numa teia de aranha.

Um passo dentro do mato,
Farfalhar de folhas secas.
Um suspiro de cansaço,
Um maço de flores secas
À espera do teu braço.

Serena fotografia,
Teu sorriso eternizado
Entre as tramas do passado.

Finalmente, a tarde morre,
E os raios de sol, já fracos,
Escrevem teu nome nas flores
Que sobre a cerca, murcharam...




domingo, 21 de julho de 2013

A Casa & a Alma




"A casa é a morada do corpo. O corpo é a morada da alma. Portanto, a casa é a morada da alma."

É o que eu sinto quando vou passando pelos cômodos da minha casa, arrumando, limpando e perfumando. Depois de tudo pronto... curtir! Aproveitar as energias renovadas, o cheirinho de limpeza, o aconchego do relógio tiquetaqueando na parede do corredor. 

E pensando em minha casa, e em outras casas que conheci ou que gostaria de conhecer, acabei abrindo mais um blog: A casa e a Alma  acasaeaalma.blogspot.com


Espero você para um café e um dedo de prosa.






sexta-feira, 19 de julho de 2013

AVENTURAS EM PORTUGAL






Texto inspirado nas dificuldades e diferenças linguísticas entre o português falado no Brasil e o português falado em Portugal.




Entramos naquele restaurante maravilhoso – eu e meu amigo português. Uma garçonete mal-humorada aproximou-se de nossa mesa, estendendo-me o cardápio. Dentre tantas variedades de pratos, achei melhor que ela sugerisse alguma coisa. Franzindo o cenho, ela respondeu:
- Sugiro a punheta.
Olhei-a, sem acreditar no que acabara de ouvir! Meu amigo permanecia impassível, olhando o cardápio. Tentando não criar um caso, decidi:
-Vou comer uma bacalhoada.
Enquanto isso, meu amigo decidiu:
- De entrada, traga-nos cacetes amanteigados. Para beber, um sumo de laranja. Eu vou ficar com a punheta.
Aos berros, a garçonete faz o pedido:
-Dois cacetes amanteigados e sumo de laranja para a mesa oito! Uma bacalhoada e uma punheta!
Senti-me corar. Meu amigo percebeu, e achando que eu estava chocada pela maneira escandalosa da garçonete, ele comentou, rindo:
-Não te preocupes! Ela deve estar com histórias... com licença, vou ali cumprimentar meu amigo banheiro um minutinho e já volto.
Enquanto eu esperava a refeição, o celular do homem na mesa à esquerda tocou, e ao atendê-lo, ele disse: “Está lá?”
Naquele momento, entra no restaurante um grupo de crianças barulhentas, acompanhadas dos avós, supus, e o homem ao telefone diz:
-Como? O que disseste? Fala mais alto, pois acaba de adentrar uns canalhas barulhentos!
Fiquei escandalizada pela maneira como ele se referiu às crianças. Meu amigo voltou, e não querendo ser indiscreta, não comentei o assunto. Fizemos nossa refeição, que estava deliciosa, e chamando a garçonete, meu amigo pediu duas bicas. Também perguntou-lhe se ela sabia aonde ficava a paragem de autocarro mais próxima, o que ela nos informou entre grunhidos.
Deixamos o restaurante. Meu amigo perguntou-me se eu não gostaria de olhar as montras, e sem graça, eu respondi que não (não tinha a menor ideia sobre o que ele estava sugerindo que eu olhasse). Então, ele pediu-me licença, dizendo que precisava ir comprar fita-cola para sua esposa, e eu sorri, pois sabia exatamente o que aquilo significava. Orgulhosa pela minha inteligência, afirmei, caprichando no sotaque de Portugal:
-Entendi! Vais comprar durex!
Meu amigo me olhou como se eu fosse de outro planeta, corando muito, e respondeu-me:
-Não! Já disse, vou comprar fita-cola! Enquanto isso, fique lá naquela bicha a guardar nosso lugar!
Olhei para o lugar que ele estava apontando, e vi um homem afeminado parado em um ponto de ônibus. Pensei no quanto seria preconceituoso referir-se a um gay daquela maneira no Brasil! Indignada, perguntei:
-Onde queres que eu fique?
E meu amigo, já impaciente:
-Ali, naquela bicha, junto ao paneleiro!
Olhei, mas não vi panela alguma... mesmo assim, fui até o lugar que ele me indicou, e dez minutos depois, meu amigo estava de volta. Estendeu-me uma caixa de goma de mascar, oferecendo:
-Queres uma pastilha elástica?
Por via das dúvidas, agradeci e recusei. Naquele momento, nosso ônibus chegou. Acho que devido à longa viagem e a tudo o que havia ingerido no restaurante, comecei a sentir-me um pouco enjoada. Meu amigo sugeriu que fôssemos a uma farmácia para que eu tomasse uma pica digestiva.
Agradeci novamente, e disse que já me sentia bem melhor.
Ele comentou:
-Antes tivesses comido a punheta!
Concordei com ele, só para não perder o amigo.


Glossário


punheta: bacalhau cru desfiado
cacetes: paezinhos
estra com histórias: ficar menstruada
banheiro - salva-vidas
Está lá? - alô?
canalhas - grupo de crianças
bica - cafezinho
paragem de autocarro - ponto de ônibus
montra - vitrine
fita-cola - durex
durex - camisinha
bicha - fila
paneleiro - gay
pastilha elástica - goma de mascar
pica - injeção

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Punhal





PUNHAL





Havia um punhal na bainha,
Acomodado à cintura,
Um punhal bem afiado,
Brilhando na noite escura...

Havia um punhal, e eu o via,
Mas não soube, ninguém disse
Se ele ali estava, em riste,
Para cortar os nós da corda
Ou da concórdia, os laços...

Mas sei que senti sua presença
No meio daquele abraço...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A tristeza Fecha as Janelas



A tristeza fecha as janelas,
Todas elas.

Deixa no ar um som de lamento,
Causa uma dor que olha para fora
Da escuridão que está
Do lado de  dentro.

A tristeza pode não dar nenhum momento de paz,
Nenhum  momento!...

Pinta de negro as cores de um dia,
Renega tentativas
De qualquer paz, qualquer alegria,
A tristeza não perdoa,
E quando dói, é dor fremente,
Doa a quem doer...

A tristeza recolhe-se em si mesma,
Planta gavinhas no coração,
Que se agarram cada vez mais.

A tristeza não perdoa:
Faz chorar qualquer sorriso...

Mas a tristeza, quando vem,
Traz sempre consigo uma mensagem,
Que se encontra no final
De uma estrada escura, e talvez, longa,
Mas somente quem a cruza,
Sem negação, vencendo o medo,
Poderá reencontrar 
Sua alegria, e a si mesmo.





terça-feira, 16 de julho de 2013

Colagem




Ponha ali, bem à esquerda, 
Um pedacinho de azul,
Mas que seja bem clarinho,
Como o céu num final de tarde.

Deixe que a chuva caia
E espalhe pelo dia
Um cheiro de terra molhada,
Formando poças de espelhos
Para refletir o céu.

Coloque do outro lado,
Roseiras e margaridas
Flores em rosa e lilás,
E uma poltrona macia
Para eu ver o por do sol.

Lá longe, ponha eucaliptos,
Pinheiros, cedros, ipês,
Fruteiras, um jacarandá
E um salgueiro chorão
Para ser meu companheiro.

Coloque no centro de tudo,
As lembranças mais bonitas,
Aquelas, que trazem-nos vozes,
E imagens coloridas.

Escolha uma trilha sonora
Para cada movimento,
Salpique estrelas de prata,
Deixe o luar branco e redondo
Bem no centro.

Cubra tudo com beijo de vento,
E perfume de café;
Emoldure com cuidado,
Pois esta,
É a minha vida,
É...


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Partidas Sem Chegadas





Partidas Sem Chegadas


Naquele braço de rio,
Um barco tão esperado
Que nunca, jamais chegou...
E o braço fica esticado,
Desenhando no horizonte
A esperança malograda.

Tarde esquecida, noite parda,
Sem luar e sem estrelas...
Nas águas do rio, mágoas,
Sono agitado na esteira.

Naquele braço de rio
Não houve barcos ou águas
Que trouxessem algum alento,
Que lavassem tantas mágoas!...

E a distância anunciada
Pelo silêncio total
Dos barcos que se perderam
Em mil portos diferentes
Que anunciam só partidas,
Mas partidas sem chegadas...

domingo, 14 de julho de 2013

Dias






Dias



Um a um, qual gotas esparsas,
Perfume de nuvem branca
Nas asas das garças
Que passam,
Penas que caem
Até que estanque o voo.

Pétalas roxas
Caídas do vaso de violetas.
Lagarta passando, lentamente,
Corpo em ondas sinuosas
E de repente,
-Passou!

Colar de contas enfileiradas,
Como os passos calculados
De uma jornada...

-Arrebenta,
Caem as contas,
Espalham-se,
Fio pendurado
Pendendo no vazio.

Nenhum sinal,
Nenhum aviso,
A brisa soprada que ergue a pluma
Arrancada
De uma asa que há muito
Não mais existe,
Mas fica a pena
(Da asa e da vida).

sábado, 13 de julho de 2013

Quando Tudo Era Lindo







Quando Tudo Era Lindo


Será o piano tocando,
Música de fundo do meu dia?
Só sei que de repente,
Me veio uma tristeza,
Ao pensar que antes
Era tudo mais lindo...

Acordar bem cedo,
Os pais conversando na cozinha,
Sons abafados
De quem ainda estava dormindo...
Lá fora, os passarinhos,
Um galo cantando ao longe
E a certeza de que eu era querida
E estava sempre
Protegida.

Hoje, somos todos tão sozinhos!
Criamos tantos abismos,
Mas nos esquecemos das pontes.
Não criamos asas,
Há paredes demais nas casas...

Nos esquecemos de que um dia,
Secam todas as fontes
Quando abandonadas,
Quebram-se as calçadas, fazendo gretas,
Por onde a chuva escorre,
Gastando caminhos.

Deixamos, no chão,
Apenas as pegadas
De uma estrada perdida, esquecida,
Por onde não passa mais nada.

Sim, talvez seja o piano...

Mas é que hoje eu me lembrei
De tantas coisas que passaram,
De tantos rostos sorridentes,
Das histórias que contei
E das que um dia, me contaram...

Olho para fora; nuvem cinzenta sobre as casas,
Com rasgos de azul aqui e ali.
Parece que o ceú desenha uma esperança,
Como quem ensaia, numa dança,
Os passos de um ressurgir.

Acho que é o piano... talvez seja mesmo.
E agora, esse violino... 


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Sobre Culpar os Pais






Sobre Culpar os Pais


É sempre complicado assumir a responsabilidade pelos nossos próprios erros e atrasos na vida. Quando muito jovens, alguns tendem a culpar os pais pela maioria de seus desacertos - e durante algum tempo, a psicologia vem contribuindo para que isto aconteça. Apesar de jamais desconsiderar a importância da psicologia no processo de autoconhecimento, acredito que inúmeras vezes ela tem criado rótulos que em nada o facilitam. 

Durante a infância, as impressões que vão ficando marcadas em nós podem ser muito importantes para ajudar a definir que tipo de adultos nós seremos; mas a qualquer momento, cada um deve ter a responsabilidade de escolher o próprio caminho e segui-lo sem a necessidade de culpar os pais, a escola, a sociedade ou as condições de vida pelo seu insucesso.

Vemos, muitas vezes, irmãos que foram criados sob as mesmas condições de vida (favoráveis ou não); enquanto alguns obtém sucesso e atingem seus objetivos, outros entregam-se ao exercício da lamentação e passam a responsabilizar os pais e as condições de vida por suas frustrações. Ora, se foram criados sob as mesmas condições, por que um deles atingiu o sucesso e o outro não? Não seria uma questão de esforço pessoal e dedicação?

Quando os filhos utilizam-se dos erros dos pais a fim de justificar os próprios erros, não percebem que, além de estarem sendo desrespeitosos em relação aos seres humanos que os pais são - pois sendo humano, quem não comete erros? -, na verdade, eles (os filhos) sabotam a si mesmos. Usam como desculpa para a inação o fato de que não tiveram bons exemplos a seguir; ora, exatamente por estarem conscientes deste fato, não teriam os filhos mais motivos para tentarem usar o que chamam de "a má vida dos pais" como um exemplo para melhorarem as próprias vidas?

Culpar os outros pelo seu próprio fracasso é como culpar a Deus porque choveu no dia do pic-nic. Não faz sentido. Apesar de muitas vezes, a convivência com os outros afetar as nossa vidas, somos nós quem temos a responsabilidade de fazer as nossas escolhas. E o tempo passa; se deixarmos para mais tarde, estaremos perdendo um tempo precioso! 

Ninguém vem para a vida com a intenção de errar. Todos nascemos e vivemos desejando fazer escolhas certas e sermos felizes, e acho que mesmo quando nós erramos, temos o direito de refazer o caminho, consertarmos nossos erros e seguir em frente. Acredito que uma das coisas mais tristes para um pai ou uma mãe, é quando um filho os despreza, apontando os erros que eles cometeram (e dos quais tentam poupar o filho ingrato), e escutam-no dizer em tom de condenação: "Mas quem é você para julgar-me?"

Se eu fosse a mãe, responderia:

"Eu sou sua mãe! Sou a pessoa por quem você deveria mostrar consideração e respeito, a pessoa que mais deseja a sua felicidade nesse mundo, e que jamais, em qualquer ocasião, seria capaz de agir de forma a desejar-lhe qualquer mal. Eu sou a mulher que o trouxe ao mundo, e quando eu deixá-lo, quero ter a certeza de que você será capaz de viver bem sem a minha presença, sabendo que eu o encaminhei bem na vida, e que contribuí para que você fosse uma pessoa de bem. Uma pessoa muito mais feliz e capaz do que eu mesma fui. Uma pessoa bem melhor do que eu."


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mãos Vazias




Pra ser feliz, às vezes
É preciso uma gota
De egoísmo...

-Vês?

A dor do outro
Quando nada há
Que possa ser feito,
Queima o peito,
Cala a voz!

Ah, triste cenário,
Ver que o que deve ser feito
Não o será,

Pois falta um simples gesto
De vontade própria,
Que não cabe em minhas mãos!

E eles seguem sempre,
Ansiando pelo perfume de uma rosa
Que jamais plantaram!



Ainda Bem que Existe a Poesia!...





Ainda Bem que Existe a Poesia!...


É tanta coisa, tanta, todo dia!
Da mais profunda e límpida tristeza
À beira da mais louca alegria...
E o sol se deita, e se levanta,
Todo santo dia!

Enquanto isso, a lágrima de esperança
Escorre devagar por entre os dedos,
Formando imensos, densos, tristes rios
Da mais total e pura nostalgia!...

-Ainda bem que existe a poesia!

E é ela quem derrama, entre linhas,
O doce do alcaçuz, o fel das rinhas,
A vida traduzida em verso e prosa,

Da cega e escura noite
À singeleza da rosa!

-Ainda bem que existe a poesia!

E quando vem a chuva, em gotas lindas
Fazendo transbordar muitas saudades,
É ela quem nos salva e nos resgata:
Uma consolação de pura arte!

-Ainda bem que existe a poesia!

E quando na memória mais profunda
Insiste a dor mais forte, mais fecunda,
De repente, nos chega um passarinho,
E a mente assim se solta, de mansinho...

-Ainda bem que existe a poesia!


terça-feira, 9 de julho de 2013



Eu Menina na Menina dos Teus Olhos


Te olho;
E quando te olho,
Me vejo menina
Nas tuas pupilas,
A brincar
Com a menina dos teus olhos.

Nos damos as mãos,
Corremos, cantamos,
E vemos tudo,
Como cores de algo novo:

A nossa casa,
O céu, as plantas,
A lua açucarada,
Docinhos de estrelas...

De mãos dadas brincamos
Dentro dos olhos,
Até que rolamos
Nas lágrimas,
Aterrisamos
Na grama orvalhada.

Corremos em rios
Entre risos e lágrimas,
E o que nos une
É que nos vemos,
Eu, nos teus olhos,
Tu, nos meus olhos.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Minha Vida






Minha Vida


Nada muito grande,
A minha vida.
Pode ser, por todos,
Ignorada,
Deixada de lado, esquecida,
Pode acabar-se de repente,
Nalguma esquina perdida.

Basta que alguém puxe uma alavanca,
Ou quem sabe, acelere,
Ou aquele encontro em Samarcanda?...

Um quase nada,
A minha vida.
Frágil sopro distraído
Que saiu da boca
De um deus cansado
Enquanto ele suspirava!

Foi como surgiu o universo:
Um simples espirro,
E veio um verso
De um poeta entediado.

É assim, a minha vida:
Nada tão importante,
Ou relevante,
Que morre ao fechar dos olhos
Na beira de cada noite,
Como um simples talho
Que corta um fio.

Mas desperta toda manhã,
Nas gotas de orvalho.

domingo, 7 de julho de 2013

Retorno






Retorno

Pensei jamais voltar aqui,
Mas a estrada me trouxe
Estendendo aos meus pés
Os caminhos de outrora.

Puxei, sem querer, os fios da memória
E me lembrei de ti.

Tudo, nesse jardim
É planta sem flor, sem viço,
Caminhos musgosos
Cobertos de densa neblina
Onde um dia, tu passaste.

Queria ouvir de novo a tua voz
No bico de um pássaro,
Ou ver um segundo do teu rosto
No espelho silencioso destas águas!

Mas há um rio entre nós,
E nos olhamos
Cada qual, do seu lado,
Sabendo que não há pontes
E nem há barcos.

A vontade afunda, afoga-se,
Sem jamais chegar às margens.


sábado, 6 de julho de 2013

Inesperado






Inesperado


Por mais que seja noite,
-Cliché: um dia, amanhece!
E os cedros negros,
Que lembravam monstros,
Serão flautas para o vento.

E num momento de pura surpresa,
As nuvens recolherão as tempestades,
Abrindo um caminho no meio do céu
Para que o sol passe.

O musgo do abandono
Que cresceu pelo caminho não trilhado
Será estrada aveludada
Que levará ao reencontro tão sonhado.

Num dia inesperado,
Quando os olhos estiverem secos
E o riso tiver voltado.




quarta-feira, 3 de julho de 2013

Realidade






Realidade

As lentes cegam,
Mudam as cores,
Põe no cenário
O que não está.

Realidade,
Qual a verdade,
Com quantas cores
Podem pintar?

Torcem as cordas
Chamam coragem
O que é vertigem,
Não enxergar...

Realidade,
Qual o teu nome?
Holografia
Do que não há...

Já nem bem sabem
Seus próprios nomes,
Penam de fome
Sem saciar!...

Realidade,
Fecho meus olhos
Sonho contigo
Para te achar...


terça-feira, 2 de julho de 2013

In memoriam






Sob o teu nome, eu li: "In Memoriam." Lembrei-me do teu riso solto e fácil. Coisas boas me vieram à cabeça, e também, as piores coisas.

Lembrei-me de você pequeno, correndo pela casa com seus primos, andando de bicicleta no quintal, fazendo manha, gargalhando. Lembrei-me de você com o uniforme da escola, e nas festinhas de aniversário. Revi fotografias onde ficou guardado o teu sorriso, e a tua presença entre os amigos. Era sempre tão difícil encontrar uma foto na qual você estava só!

Lembrei-me de você durante as suas aulas de inglês, aos sábados de manhã, quando você e a Dani vinham juntos, e das conversas depois da aula, quando descíamos a rua à pé, falando dos planos para um futuro que não aconteceu.

As coisas boas de se lembrar logo foram sendo substituidas pelo que vivemos nos teus últimos dias.

Lembrei-me daquele último ano novo, do quanto foi difícil festejar, tentar encontrar algum motivo para sorrir, sabendo que aquele era o teu último ano novo. Lembrei-me daquele telefonema, o último que você me fez, numa sexta-feira de manhã, aos prantos: "Tia, eu não estou bem. Estou com muita raiva." Eu, daqui, não sabia o que dizer para te consolar, então, eu disse: "Chore, coloque tudo isso para fora. Soque um travesseiro, mas não guarde essa raiva." E você respondeu, já rindo: "Mas tia, eu já estou todo ferrado, e se eu for socar um travesseiro e me ferrar mais ainda?" 

Desliguei o telefone rindo, mas só Deus sabe como eu me sentia.

Vi a mim mesma agarrada àquele par de muletas, na recepção do hospital, chorando em público como eu jamais havia feito na vida. Ouvi novamente o toque do telefone naquela terça-feira de janeiro, a pior de minha vida. Ouvi os passos do meu marido descendo devagar as escadas, e parando antes de chegar ao final. Ouvi-o chamar meu nome, e ao olhar nos olhos dele, eu soube.

Vi teus amigos escrevendo mensagens de adeus com tinta branca sobre a madeira escura. 

Voltei agora ao teu nome, escrito no trabalho de faculdade que teus amigos vieram trazer para mostrar à sua mãe, tanto tempo depois. Sob, está escrito: "In Memoriam." E mesmo depois de tanto tempo, eles não te esqueceram; vieram de tão longe para entregar este presente à sua mãe. Com certeza, eles sabem do quanto este trabalho foi importante para você. A pesquisa foi aceita por uma universidade dos Estados Unidos! E você terá seu nome nele para sempre, junto aos nomes de seus amigos.

O trabalho agora está aqui comigo, em minha casa, para que eu o traduza. Mas toda vez que abro o envelope, eu me lembro. Um dia, talvez eu consiga traduzi-lo. 




E já que você adorava O Senhor dos Anéis...


May It Be
May it be an evening star
Shines down upon you
May it be when darkness falls
Your heart will be true
You walk a lonely road
Oh!How far you are from home

Mornie utúlië (darkness has come)
Believe and you will find your way
Mornie alantië (darkness has fallen)
A promise lives within you know

May it be the shadows call
Will fly away
May it be your journey on
To light the day
When the night is overcome
You may rise to find the sun

Mornie utúlië (darkness has come)
Believe and you will find your way
Mornie alantië (darkness has fallen)
A promise lives within you now

A promise lives within you now






Que Seja
Que uma estrela do anoitecer
Brilhe sobre você
Que quando a escuridão cair
Seu coração seja verdadeiro
Você caminha por uma estrada solitária
Oh! Como você está longe de casa

Mornie utúlië (a escuridão veio)
Acredite e encontrará seu caminho
Mornie alantië (a escuridão caiu)
Uma promessa vive dentro de você agora

Que o chamado das sombras
Fuja
Que sua jornada continue
Para iluminar o dia
Quando a noite for superada
Você poderá se erguer para encontrar o sol

Mornie utúlië (a escuridão veio)
Acredite e encontrará seu caminho
Mornie alantië (a escuridão caiu)
Uma promessa vive dentro de você agora

Uma promessa vive dentro de você agora



MINHA MISSÃO É ESTAR AQUI

Estava lendo  uma entrevista da psicóloga e personal coach americana Laura Ciel, no qual ela fala sobre aquele momento (momen...