domingo, 31 de março de 2013

Memória






A memória chora
Pelo que ficou...
Antes,
Tivesse ido.

No silêncio,
Os risos...
Ecos
E fantasmas
Do que não está.

Cacos de vidro,
Sementes secas
Poeira seca,
Retratos
Amarelecidos..

Páginas abertas
De um negro livro
Que aprisionou
A luz
E o riso
Daquilo que não foi
Nem será, jamais,
Esquecido.


Relâmpago









De repente, a luz,
Mas a que não salva;
A luz menos alva,
Que nos traz
A tempestade.

Prenúncio,
Presságio,
Revela a cruz
Sombra de nuvem,
Trovão.

E eu me encolho,
Crispando as mãos;
Recolho-te dentro
Do meu coração.





O Corso





Passou o corso, trazendo alegria,
Deixando, no meio da rua,
Os ecos de sua folia
Pedaços coloridos
De doce ilusão.

Passou o corso, aliviando as mágoas,
Esmagando as dores,
A ilusão caía,
Em chuva de prata,
Acenos na carreata.

Risos passavam com ele,
As serpentinas jogadas
Entranhavam-se nas tristezas,
Arrancando-as
E elas voavam...

Passou o corso, entre risos de alcaçuz,
Mas como tudo na vida,
Ele se foi,
Cessou a escansão 
Deixando atrás 
Do seu rastro de luz
A escuridão.

sábado, 30 de março de 2013

Um Pouco de DNA - Para melhor entendermos as nossas origens









Trecho do livro "Sobrenatural - os mistérios que cercam a origem da religião e da arte" - por Graham Hancock



(...) Uma segunda linguagem química da mesma antiguidade pode ser vista nos ácidos nucleicos, DNA e RNA. Classificados entre aquela ampla categoria de compostos sintéticos conhecidos como polímeros, eles são cadeias de moléculas gigantes, cada uma das quais caracterizada por padrões repetitivos - "bases" - de apenas quatro elementos químicos. Para o RNA eles são adenina, citosina, guanina e uracil (representados pelas letras iniciais A, C, G e U). para o DNA, as primeiras três bases são as mesmas - ou seja, adenina, citosina e guanina, enquanto que a quarta é timina (T), parente tão próxima da Uracil que não cria nenhuma incompatibilidade nas constantes interações que aparecem ao nível celular entre filamentos de DNA e filamentos de RNA.

Esses dois polímetros (com o DNA geralmente 'no comando' e o RNA fazendo as funções subalternas de 'mensageiro') carregam toda a informação genética exigida para construir organismos vivos, e são os gabaritos fundamentais da hereditariedade. Além do mais, o DNA e o RNA, com suas quatro bases, permanecem exatamente os mesmos e preenchem exatamente as mesmas funções em todas as coisas vivas, quer sejam bactéria ou elefante, mosca ou cachorro, água-viva ou acácia, repolho ou borboleta, peixinhos ou baleia, verme ou homem, 4 bilhões de anos atrás ou hoje. Tudo que muda é a ordem das letras, A, C, G e T no código genético escrito no DNA de cada organismo e, é claro, na quantidade de DNA que cada organismo possui. Assim, a bactéria intestinal E. coli consiste de apenas uma única célula dentro da qual está enroscada uma cinta de meio milímetro de polímero DNA; em contraste, como vimos, cada uma das milhares de bilhões de células que formam o corpo humano contém 2 metros do mesmo DNA - obviamente carregada com muitos mais parágrafos de código genético do que as insignificantes E. coli tem ensejo ou necessitam. Ainda assim, grande quantidade de informação é exigida para codificar mesmo as mais simples formas de vida. Mycolasma genitalium é a menor bactéria conhecida pela ciência, mas, apesar disso, exige bastante DNA para realizar seu código genético de 580 mil letras. O mais extenso código genético que especifica um ser humano consiste de aproximadamente 3 bilhões de letras, seguindo cada uma daquelas fitas de DNA de 2 metros de comprimento enroscadas dentro de cada uma de nossas células.  (...)

.  .  .


Uma nota minha: assim sendo, se nosso código genético é formado da mesma matéria com a qual é formado o código genético de todas as criaturas vivas, sejam elas quais forem, até mesmo um coliforme fecal,onde podemos dizer que somos assim tão superiores / inferiores às outras criaturas, e uns aos outros?


Feliz Páscoa a todos.


sexta-feira, 29 de março de 2013

Troca de Olhares










Um segundo os aproxima, 


Uma abertura no tempo... 


É mais que um simples momento, 


Muito mais que só rotina... 



De repente, duas almas 


Reconhecem-se nesta vida, 


Uma delas, como gente, 


E a outra, como cão. 



Vê-se logo, nas pupilas, 


Que ali dentro, mora um anjo... 


É um amor sem proporção, 


E se houver uma carícia, 


Selará uma amizade, 


Preenchendo um grande vão. 







Textos de Humor






Textos de Humor


Como muitos já sabem, há algum tempo faço parte da escrivaninha dos Cavaleiros do Apocalipse, e meu personagem, chama-se Anna Vagalume. Outras pessoas, além de mim, também já fizeram parte, mas por motivos pessoais, nos deixaram; atualmente, ficamos Marcelo Braga (ou Magrelo Praga) e eu.

O que é um texto de humor?

Desde os primórdios da comédia, os textos de humor tratam do cotidiano, das pessoas comuns, e antigamente, estes personagens eram retratados nos palcos de teatro em todo o mundo; lá estavam eles: o cobrador de impostos, a dama hipócrita, o vizinho, o plebeu  e até o Rei! Todos eles retratados de forma cômica, com suas piores 'qualidades' ricamente caricaturadas. E os teatros ficavam cheios, pois todo mundo gostava daqueles personagens - com os quais, muitas vezes, se identificavam.

Porque rir de si mesmo é uma das coisas mais relaxantes que existem. Apenas as pessoas realmente desprendidas são capazes de tal proeza. Nós mesmos, que fazemos parte da escrivaninha dos cavaleiros do Apocalipse, somos personagens ridículos de nossas tramas ridículas. Porque o ridículo faz rir.

Hoje em dia, é muito comum as pessoas considerarem bullying o que antigamente era chamado de 'brincadeira.' Hoje em dia, as pessoas chamam de preconceito, abuso, cretinice aquilo do qual elas mesmas riem (desde que se trate do político, do artista de TV, do personagem da novela). 

Programas como Casseta & Planeta, A Grande Família, Entre Tapas e Beijos, Zorra Total, A Praça é Nossa, CQC, Pânico na TV e muitos outros, sobrevivem fazendo troça do cotidiano. Isto chama-se comédia. A comédia da vida. Todos que os assistem dão gargalhadas ao identificarem, entre os personagens, o político, o vizinho, o professor, e até eles próprios! Nos tempos da censura, não se podia ridicularizar os políticos; mas graças a Deus, a censura acabou, terminou!

E qual é o objetivo dos Cavaleiros do Apocalipse? Rir e fazer rir. Retratamos o ridículo, o lado engraçado  do cotidiano. Jamais citamos nomes de pessoas do Recanto das Letras, embora alguns possam estar lá. Até nós estamos! Eu mesma sou a personagem 'desconfiada' e 'brigona', enquanto Marcelo é o 'preguiçoso' e 'oportunista.' Se não fosse assim, não haveria humor.

Não temos como objetivo 'atacar' ou ferir ninguém. Se alguém pensa assim, está errado. Podemos usar o espaço, entretanto, para tentar refutar ataques a que somos submetidos, vindos de pessoas que clamam pela sua liberdade de expressão, e ao mesmo tempo, tentam controlar a liberdade alheia. E podem ter certeza que os personagens que criamos inspirados nestas pessoas, não são sequer dez por cento do que já tivemos que engolir vindo deles...

Poemas & Poetas






Poemas & Poetas



Ah, a arte de escrever poemas... é preciso antes passar pelo coração, e então, esticando o fio que nos une ao invisível - e que só é encontrado dentro do coração de cada um -, segui-lo, trazendo de lá (embora eu não saiba onde é 'lá) as linhas do poema. Mas todo poema deve, primeiro, passar pelo coração. Ou cairá natimorto na folha, seco, sem sentido, embora metricamente correto. 


Eu não tenho um estilo preferido de poema, quando leio. Jamais conto métricas, jamais procuro rimas. O que eu procuro, está além da beleza estética, embora esta seja importante. A beleza real de um poema, para mim, descansa na sua alma. Um poema, após escrito, adquire alma própria, e torna-se vivo. Não importa seu formato: pode ser um soneto, uma aldravia, um Haikai, um indriso... tanto faz! Pode até ser o que chamamos de 'livre.' A única condição, é que ele tenha alma, e sobreviva, após criado, sem a interferência do criador. 


Escrevo poemas, preferencialmente, livres. Raramente reviso o que escrevi, porque é assim que eu me sinto melhor. Não tenho, e nem nunca tive, absolutamente nada contra quem escreve diferente, e quem me conhece, sabe disso. Escrevo como gosto, e leio e comento todos os tipos de poemas, sem preconceitos. Não acho que as pessoas devam escrever desta ou daquela maneira. 


Algumas vezes aventuro-me pelos caminhos dos sonetos, aldravias e haikais. Gosto de experimentar também; mas na verdade, quando meus poemas nascem, eles apenas jorram, e sinto que é melhor deixá-los como estão. Mas não tenho absolutamente nada contra as formas mais rígidas de escrever poemas; se tivesse, simplesmente não os leria ou comentaria. Se não os escrevo com mais frequência, não é por não gostar ou sentir-me 'incompetente', e sim porque sinto-me mais à vontade nas formas livres. 


É sempre um imenso prazer ter um poema lido e apreciado, vê-lo comentado. Tenho certeza de que a maioria das pessoas há de concordar comigo. Mas não é este o meu principal objetivo ao escrever. Não quero concorrer com ninguém, não desejo provar nada a ninguém ou comparar-me com quem quer que escreva em qualquer estilo. Há espaço para todos! Acima de tudo, tenho plena consciência de que escrever poemas não vai tornar-me rica ou famosa. Não mesmo... se continuo escrevendo, é porque uma necessidade maior que eu toma conta de mim. 


Existem, no Recanto das Letras e na literatura mundial, poetas de todos os estilos, para todos os gostos. Para mim, a missão do poeta, é deixar o mundo mais bonito. Nem que seja apenas o mundo que o circunda. O poeta fala das coisas que ele vive, mostra a sua visão dos acontecimentos, expressa sua alegria e sua tristeza, sua indignação e sua dor, sua felicidade e seu medo. Mas acima de tudo, o poeta é um mensageiro além de si mesmo; não acredito que ele deve considerar-se origem, e sim, passagem. 


Confesso que às vezes soa-me estranha a minha própria voz, quando falo daquele 'meu' poema... como um pai ou mãe amorosos não criam filhos para si mesmos, o verdadeiro poeta não cria poemas para si mesmo; cria-os para o mundo, para os leitores! E mesmo que sejam demasiadamente introspectivos, depois que os escreve e publica, seja em livros ou blogs e sites na internet, o poeta não mais pode dizer que 'possui' o poema. 


Não faço aqui apologia ao desrespeito aos direitos autorais, que devem ser respeitados, e para isto, existem leis que os asseguram; mas se vejo um poema meu publicado em outros espaços, desde que haja menção à autora ( e autora não significa proprietária), eu fico feliz. Sinal de que as pessoas gostaram! Sinal de que fui útil a alguém. 



quinta-feira, 28 de março de 2013

Uma Feliz Páscoa a Todos!




Amanhã é Sexta-feira da paixão. Para todos, um dia um tanto triste... depois, vem o Sábado de Aleluia, que também traz algumas lembranças tristes - afinal, Judas enforcou-se por arrependimento após trair Jesus (e até hoje, mesmo por quem é Cristão, jamais foi perdoado...).

Mas então, vem o domingo de Páscoa. Geralmente, passado junto ás pessoas de quem gostamos, a fim de celebrarmos a ressurreição de Cristo. Para mim, a Páscoa tem um significado especial, não apenas por causa das lembranças boas que ela traz da infância, mas também pelo seu significado em si. A Páscoa é renovação.

Que possamos passar pela tristeza da Sexta-feira Santa e perdoar Judas no Sábado de Aleluia. 

Tenhamos todos uma Feliz Páscoa.

Obrigada a todos os colegas blogueiros!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Da Páscoa








Da Páscoa, eu me lembro de minha irmã com caixas de sapato e papel de seda, fazendo 'ninhos' para o coelho por os ovos. Ela cortava alguns babados de papel, colava à volta da caixa, e depois, fazia palha fininha com o que sobrava dele, enquanto eu ficava imaginando o que encontraria na manhã seguinte.


Da Páscoa, lembro-me das quaresmeiras em flor. O morrinho ao lado da casa ficava salpicado de roxo e amarelo. 


Da Páscoa, lembro-me de meus pais me acordando no domingo bem cedinho, e de eu levantar da cama correndo para ir olhar meu ninho de caixa de sapato, cheio de ovinhos de chocolate e bombons. 


Da Páscoa, lembro-me da família reunida na sala de estar, assistindo àqueles filmes religiosos que passavam na semana santa, todos comendo bombons. Havia bombons que não existem mais, com sabores de frutas: figo, ameixa, pera, laranja. Não gostávamos deles, e eram sempre os últimos a serem comidos. 


Da Páscoa, lembro-me de minha irmã e eu, e das outras crianças do bairro, todos unidos depois do almoço de domingo, para mostrarmos nossos ninhos uns aos outros e comermos chocolate. 


Da Páscoa, lembro-me do almoço em família, o cheiro do 'batatalhau' se espalhando pela casa. 

Da Páscoa, lembro-me de nós no Teatro Mariano, para assistir, pela enésima vez, "A Paixão de Cristo." 

Da Páscoa, lembro-me do enorme ovo de chocolate que minha irmã mais velha ganhava do namorado, e que ficava sobre o móvel da sala de estar, por meses a fio, e no qual não podíamos nem sonhar em tocar... uma vez, ela demorou tanto tempo para abrí-lo, que quando o fez, ele estava todo mofado. 

Hoje, eu sei do verdadeiro significado da Páscoa, mas quando eu era criança, eu o vivia muito mais intensamente, sem o saber...



terça-feira, 26 de março de 2013

Cartas




Surpreende-me,
A maneira como  embaralhas
E distribuis vidas
Como se fossem cartas...

Jogas,
Descartas,
E roubas no jogo
Para a nefasta glória
De uma sórdida vitória.

E a mesa
Ganha sempre,
Cartas marcadas,
Nem lembras que são gente...

¨¨¨¨

FLORES






FLORES



As flores da tua casa
Estão roxas de saudades...
Derramam-se pelo chão,
Penduram-se em cada galho.
Quem passa e vê tanta cor
Pensa logo que é alegria,
Mas quem olhar bem de perto,
Verá que é só agonia...



As flores da tua casa
Cansaram de florescer...
Exalam exuberância
Mas sofrem por não te ver.
Espalham sua beleza
Mas quem as vê, logo sente
Que se elas desabrocham,
É apenas de tristeza!



As flores da tua casa
Que um dia, você plantou
Tem as pétalas sem riso
Sonhando com o paraíso...
E quando chegar o inverno,
Eu não sei o que vai ser...
Será que na primavera
Voltarão a florescer?...



"As flores do jardim da nossa casa morreram todas de saudades de você." - Roberto Carlos


Paz




Enquanto me desfias, divirto-me,
Pois pensas que me desnudas,
Que achas novo planeta,
Quando nada em mim está sob,
Nada...

Rio da tua giga,
Do peso que pões em teu dorso...
Pois não é preciso esforço
Para desvendar o óbvio!

É só olhar nos meus olhos,
E verás o que desejas
(Ou talvez, o que não queres)
Sem sofreres qualquer opóbrio!

Pois de todos os mistérios
Que procuras desvendar,
Sou o menos misterioso,
Cedo ao peso de um olhar...

*

segunda-feira, 25 de março de 2013

DEVOÇÃO





Ama-me, este cão,
Cobre-me com seu olhar amado,
Deseja minha presença,
Quer-me ao seu lado,
Sem nem sequer pedir compensação.

Compreende-me em silêncio,
Não indaga,
Dedica-me o calor de suas patas,
E o seu amor sincero - devoção...

Ama-me, e como,
Este cão,
Esta inocente e pura criatura,
Que alguém mandou dos céus com a missão
De ser o meu anjo guardião...

Ama-me, sem nada pedir em troca,
A não ser, um pouco de carinho,
A não ser, uma gota de atenção.

*

Porta Fechada




Atrás da porta
Eu ando nua,
Me sento nua,
Faço o que quero.

Atrás da porta,
Eu me revelo,
Digo o que penso,
Faço o que quero.

Atrás da porta
Dentro da casa,
Eu sou mais eu,
Fecho a cortina,
Ninguém vê nada.

Atrás da porta
Vivo trancada
E mesmo assim
Existe gente
Incomodada...

*


Das Marcas







...E quando eu me for, deixarei poucas marcas,
Todas rasas,
Perder-me-hei no vão das estradas
Por onde passa o esquecimento,
Apagando todas as pegadas.

Minha memória será breve,
Lavada pelo pranto igualmente raso
Dos que jamais me amaram ou compreenderam
Ou souberam, realmente, quem eu fui.

Talvez demorem-se um instante no caminho,
Olhando para trás, 
Enquanto um bando de pássaros em revoada
Carregam consigo o que restou de mim,
Para bem longe,
Para o infinito,
Onde esquecem-se as memórias.

Talvez meditem no enigma daquela
Estranha criatura, que nasceu
E cresceu entre eles, 
Sem jamais tornar-se como eles,
Uma alma caída não-se-sabe-de-onde,
Ou por qual objetivo.

Pois se hoje mesmo, sinto o quanto sou efêmera
Nos corações que cultivei
Por onde plantei flores que cresceram
E murcharam,
Negligenciadas.

Talvez seja melhor que eu seja assim,
Uma alma que passa, como uma nuvem carregada,
Que chove e cai na terra abençoada,
Fertilizando tudo, 
E depois retorna, evaporada,
Sem que seja lembrada,
Sem que seja notada.








domingo, 24 de março de 2013

ÍNFIMO










Aquela gota sobre a folha, 


Ínfima, 


A nuvem quase derretida, 


Qual fiapo de vida que passa, 


Mas deixa seu encanto em algum canto... 



A borboletinha que voa de manhã, 


Espalhando graça, 


Gotículas de chuva na vidraça... 


Pequeno besouro, tão perfeito, 


Que as asas parecem pintadas 


Pelo pincel de um grande artista 


De grandes efeitos... 



A minoria, desprezada, ignorada, 


A que dorme nas calçadas 


Com quem ninguém se importa, e quem sabe, 


Tenham a alma mais lavada! 


Suaves nuances de poesia, 


As sombras que aos poucos se transformam 


Trazendo a tarde, 


A noite, e outro dia... 



As coisas que nascem e morrem 


À margem de tudo aquilo 


Que a maioria considera importante, 


Passando despercebidas, 


Esquecidas... 



Vem e vão sem nenhum grito, 


Arrancam-lhes a dignidade 


E o direito de existir 


Violentamente, 


Com os ganchos da maldade! 



Disseram-me 


Que as minorias 


Deveriam ficar à margem 


Da vida, da sociedade, 


Pois nada tem a dizer 


Ou a acrescentar ao mundo... 


Devem permanecer no escuro fundo 


Da dor, do preconceito e do medo, 


Sem serem notadas, 



Como as pequenas gotas de orvalho sobre a folha, 


As borboletinhas, 


Os pequenos besouros 


E as nuvens efêmeras 


Cuja chuva nem toca o solo! 


Só tem direito à vida 


Quem é grande, normal, importante, 


Quem dita as regras às minorias, 


Regras que devem ser seguidas 


E jamais contestadas! 




Abaixo as pequenas coisas da vida, 


Abaixo as minorias, 


Abaixo a voz que tenta ser ouvida, 


Abaixo as palavras de Cristo 


Que disse que somos iguais, 


Abaixo!... 


Bem baixo, 


Por baixo de tudo, 


Sob o polegar imundo 


Daquilo que chamam justiça! 








memória






Às vezes, é bom 


Que a memória seja curta, 

Noutras, que ela se estique, 

Se lance no espaço 

E procure novamente 

Os braços do passado... 


Às vezes, é bom 

Que a vida tenha traços 

Marcantes e marcados, 

Das memórias boas, 

Vividas e partilhadas 

Pelos que se amaram. 


Às vezes, é melhor 

Que a memória esqueça, 

Para que a vida não apodreça, 

Para que o tudo não se perca 

Ante a ingratidão, 

A arrogância e o desprezo 

De quem nunca soube amar. 


A infelicidade e a insatisfação 

Hão de sempre deixar marcas, 

Qual profundos arranhões 

Naquilo que poderia 

Ter sido o mais bonito, 

O mais importante motivo 

Para recordar vida afora. 


Tudo tem sua hora, 

E quem sabe, um belo dia 

O orgulho e a arrogância 

Sejam amansados 

Pela constância e a humildade 

Da auto-observação? 


Quem sabe, assim, a alegria 

Substitua, de vez, 

A tristeza e a hipocrisia 

Daquele sonho abortado 

De quem jamais aprendeu 

A receber da vida, o dom 

De aprender a perdoar, 

De amar e ser amado?... 










Sílabas






Enquanto escrevo, brotam as ideias. Geralmente, é assim; sento-me para escrever, e as ideias brotam, e não o contrário. Quando elas brotam antes que eu me sente para escrever - ou em momentos nos quais isto é impossível, porque encontro-me longe de lápis e papel, ou em alguma situação na qual escrever não é possível - as palavras fogem e não voltam nunca mais, nem que eu tente durante horas.

Adoro sentir as sílabas enquanto martelo as teclas do computador. O ruído das teclas sendo pressionadas, para mim, é o ruído da vida... mas também gosto de sentar-me lá fora com lápis e um caderno ou agenda velhos, e deixar os pensamentos fluírem. É como um exercício de autoconhecimento, e muitas vezes eu sinto que, se não fosse pelo que escrevo, se não fossem as sílabas que me procuram e me revelam, eu já teria sucumbido a alguma força externa que me destruiria. Talvez, tivesse enlouquecido!

Penso que todo mundo precisa ter uma válvula de escape. Alguns caminham, outros, pintam quadros, outros fazem análise, outros compõe músicas, e outros escrevem. Existem várias formas de expressão que nos permitem continuarmos razoavelmente sãos. Cada um deve encontrar a sua. 

Outra coisa que amo fazer, é observar a natureza. Não consigo ficar sem fazê-lo, nem que seja por apenas cinco minutinhos ao dia. É a minha outra forma de higiene mental. Quando dá, eu fotografo as coisas que eu vejo; aquele raio de sol no ângulo da parede, a flor que acabou de brotar, um passarinho, uma montanha, uma folha, uma paisagem... momentos que, se alguém não estivesse ali para captar, ficariam perdidos.

Lembro-me do meu primeiro telefone celular com câmera; cheguei a escrever uma crônica sobre ele! De repente, eu tinha todas as imagens que desejava aos meus pés, e saí feito louca fotografando tudo e todos. Ao colocar as imagens no computador, pensei: "Ok, e agora, o que fazer com tudo isso?" Eu ainda não sabia, mas continuei fotografando. O celular era simples, e as imagens, (até hoje são), amadoras... mas era a minha maneira de ver as coisas. Daí, entrei para um site de escritores e passei, após um tempo, a ilustrar meus textos com aquelas imagens. Pura diversão...

Tenho observado uma moça blogueira de Portugal, Piedade Sol. Vejo que talvez ela tenha começado como eu... no início, fotografava e compartilhava no Google +; agora, vi que ela tem um blog onde posta suas fotos e escreve sobre o que fotografou. Adoro visitá-la. E as imagens estão cada vez melhores.

Assim, a gente vai se divertindo, pois afinal de contas, o que é que vale a pena na vida, a não ser aproveitar da forma que a gente conseguir e da melhor maneira possível, fazendo aquilo que nos deixa felizes?


A Vida é...






A vida é imprevisível, caprichosa, misteriosa, bandida. Todo mundo já ouviu uma destas afirmações alguma vez... na vida. Porque a vida é um cliché, e ao mesmo tempo, uma caixinha de surpresas. Como entender a vida? Melhor nem tentar muito, e ir vivendo-a como der, aceitando as coisas que ela impõe e não faz o favor de explicar. Mesmo assim, a vida ensina; aprende quem quiser.

E é triste constatar que muitas vezes a vida reapresenta situações, como as reprises de um filme antigo, porque ela quer que as pessoas aprendam alguma coisa, atentem para algum detalhe da história que elas não viram antes - porque foram até a cozinha pegar batatas fritas, ou foram ao banheiro durante o filme. Ou, simplesmente, caíram naquele sono quase hipnótico que o filme da vida, através da rotina, nos impõe. Bem, a vida passa uma ou várias  reprises, e nem assim as pessoas atentam para os detalhes; apenas prestam atenção ao sofrimento que vem com aquele padrão de repetição.

E o mais incrível, é que ao passar novamente por aquele caminho tortuoso, as pessoas até pensam, durante os piores momentos, que alguma coisa precisa ser mudada. Que se tiverem uma nova chance, farão tudo diferente. Que prestarão mais atenção ao que realmente importa dali por diante. Daí, passado o sofrimento, caem novamente na rotina da ignorância, voltam a repetir os mesmos padrões dormentes de comportamento e percepção. E voltam a sofrer. 

Tem gente que leva mais tempo para aprender, e tem gente que levará muitas vidas até perceber as coisas. Cada um tem o seu ritmo. Mas a preguiça e a má vontade não ajudam em nada... 

Eu olho em volta, e percebo. E fico triste porque eu realmente pensara que elas mudariam, passando a enxergar as coisas de uma forma mais amorosa e altruísta. Que o sofrimento as modificaria, trazendo mais clareza e compreensão, fazendo com que elas se sentissem mais como todas as outras pessoas: vulneráveis. Ao invés disso, elas tornam-se ainda mais duras, resistentes, julgadoras, orgulhosas. E continuam lutando por coisas que elas sabem que não trarão felicidade, pois mesmo depois de as terem obtido, elas não se viram felizes! 

E continuam a ignorar o que elas deveriam ter como a coisa mais importante da vida: o amor. Mas o que é o amor, senão mais um cliché?


sábado, 23 de março de 2013

Missão





Dos meus dedos
Escorre o mar,
Dos meus olhos
Brotam estrelas
A brilhar na noite escura.

-Só não consigo te dar
A paz, que tanto procuras!

Nascem ventos
Da minha voz,
E no meu peito,
Brotam flores
Da mais fina suavidade...

-Só não sei como curar
Do teu coração, a saudade!

Corre mel
Da minha boca,
E eu guardo
Em meu sorriso
Vertentes do Paraíso...

-Só não sei como tirar
Ou sequer, aliviar
A dor do teu peito contrito...

Te peço, fica comigo,
Embora eu nada te dê
Que te devolva o sorriso.

Mas te dou o meu amor,
Esperança que tu vestes
Por cima da tua dor.



                      

quinta-feira, 21 de março de 2013

Trovas - natureza






Folha de palmeira
Tiras navalhadas
Projetando sombras
De esguias fadas.






Estrelas azuis
Num céu de veludo
São olhos de um santo
De alcance profundo...







Água farfalhante
Jorrando na fonte
Juntando-se às gotas
De uma chuva errante







Nuvens de silêncio
Passando no céu
Deixam brancas marcas
Como um longo véu.







Pétala escarlate
De rosa, que cai
Qual um arremate
Da vida que se esvai...







Quadrado de grama
Entre muros de hera
Cenário da trama
De uma longa espera.







Nos teus olhos verdes
Traços de beleza
Que matam minha sede
E a minha tristeza.




                                                       

Lenitivo





Nos olhos, pupilas de pedra,
na boca, um gosto de vento..
No peito, um antídoto certo
Para todos os tormentos.

Basta esse céu sobre mim, 
E as cores aquareladas
De uma tarde, após a chuva,
Basta-me o dom da palavra...

Num canto, um canto de passaro
Enfeita a esquina da vida
Como um doce lenitivo
Para cada coisa perdida

E a poesia se espalha
Pelo fio da navalha
Que corta a corda que aperta
Soltando a voz que me falha.


Quando os Cães Envelhecem


Aleph (em primeiro plano) e Latifa, ainda jovens e vigorosos




Bem cedo na manhã de domingo, desperto com um uivo profundo e melancólico. 

Eu nunca tinha escutado a Latifa- minha cadela Rottweiler que completará 9 anos em abril - uivar daquele jeito. Desci as escadas correndo, e fui ver o que estava acontecendo com ela. Parecia calma e serena, arfando alegremente em seu colchãozinho, deitada à porta da sala, na varanda. Só queria atenção, e assim que me aproximei, ficou de barriga para cima, a fim de ganhar massagens. Ela agora não quer mais ficar no canil, e ultimamente, nem mesmo na adega, cuja porta deixamos sempre aberta para que ela entre e saia quando quiser. Deseja ficar onde se sente mais perto de nós.
Latifa hoje

Lembro-me da cadela hiper-ativa, cheia de marra e de vida, que me fez perder a cabeça várias vezes há alguns anos, quando arrancava e devorava, sem a menor cerimônia e sem importar-se com os espinhos, todas as minhas nove mudas de roseiras que eu plantara com as minhas próprias mãos. Cavava buracos imensos no jardim, arrancava a grama com o focinho, roía os pés dos móveis, vinha correndo e nos dava encontrões que quase nos derrubavam. Era energia demais!

Agora, está uma senhora quase idosa, lenta, e quando me olha, vejo dentro dos olhos dela uma paciência e sabedoria que eu não via antes; parece complacente. Quando tento brincar com ela usando os brinquedos, ela se agarra a eles, rosnando, mas logo os solta - ela, que nunca perdia uma 'boa briga' de cabo-de-guerra. Os passeios noturnos tem que ser curtos, pois se os prolongamos, ela acorda de manhã com dores nas juntas das patas. É a idade chegando.


Latifa há um ano



Às vezes, quando estou dando aulas, olho para fora e a vejo deitada sob a janela da sala de aula, e quando me vê, parece sorrir por alguns instantes. Quer ficar sempre o mais perto de mim que puder!  Alguns dias, quando é 'dia de princesa ' (véspera de faxina na casa) eu a deixo circular pela casa, indo aonde quiser. Ela geralmente escolhe um cantinho, deita-se e dorme a tarde toda.

Latifa só come se tiver alguém sentado ao lado dela; caso contrário, mesmo que haja na comida os seus petiscos preferidos - carne moída, salsicha picadinha, biscoitos de cachorro- ela não come. Se deixamos a comida quando vamos sair, ao voltarmos, o recipiente encontra-se intocado. Nos sentamos perto dela, e ela começa a comer com apetite, parando para nos olhar de vez em quando.

Anda chorosa e saudosa. Dia desses, coloquei-a na cozinha comigo e liguei o CD. Enquanto cozinhava e cantarolava, ela ficava no cantinho da porta me olhando. Distraí-me, e quando dei por mim... cadê a Latifa? Fui encontrá-la na área de serviço, cabeça apoiada na cerca de madeira, olhar distante e tristonho. Será que pensava no Aleph, nosso cão que morreu há dois anos? Será que os cães tem essa memória, essa saudade? Sentei-me perto dela: "O que foi, Titifa?" Ela me olhou, soltando alguns grunhidos. E por mais que eu insistisse para que ela voltasse para dentro comigo, ela ficou lá, na mesma posição e atitude.

Latifa há dois anos
Os cães, quando jovens, tem a energia de um furacão. Correm pela casa, destruindo tudo o que lhes cai entre as patas e a boca, latem, brincam, fazem a maior bagunça. Parecem máquinas de brincar! Os cães mais velhos são os companheiros ideais: calmos, doces, atenciosos, pacientes, compreensivos. E é justamente quando eles ficam mais velhos, que notamos o quanto eles foram criando, através dos anos, traços marcantes de personalidade. 

Pena que isto só acontece quando já está quase na hora de eles nos deixarem.


MINHA MISSÃO É ESTAR AQUI

Estava lendo  uma entrevista da psicóloga e personal coach americana Laura Ciel, no qual ela fala sobre aquele momento (momen...